Dublinense – catorze

São oito horas da noite e já fazem quase quatro horas que escureceu. Depois do estranhamento dos dias excessivamente longos que me obrigavam a fechar as cortinas no horário que considero decente para o sol se pôr, agora enfrento um intervalo de horas iluminadas (não necessariamente com sol, na verdade quase nunca com sol) que vai de quase nove horas da manhã até pouco depois das quatro da tarde. Tenho muito o que reclamar dos dois extremos. Não consigo decidir, porém, qual é o verdadeiro incômodo de ver a noite chegar tão cedo. Em alguns dias, o que sinto é desespero pela sensação de já serem sete horas da noite e eu fiz pouco, tão pouco desse dia. Então vejo que na verdade ainda são cinco horas, e o desespero não passa porque cinco horas também já é muito, numa latitude mais familiar ia estar escurecendo logo, e se eu desperdiçar o dia de amanhã assim também, e o de depois de amanhã, e se continuar sentindo essa improdutividade opressora dia após dia após dia, meu cérebro cruel me movendo em direção ao futuro assustador cuja data me é desconhecida. Em outros dias, me acomete um sentimento primitivo de orientação biológica, a falta de luz significa simplesmente o fim do dia e o início da noite, meu corpo merece, portanto, descansar, este é o período designado para o repouso visto que não sou um animal noturno, então porque cargas d’água ainda estou funcionando? Me irritam as luzes fortes demais, me irrita alguém fazendo barulho no corredor do apartamento ou na cozinha, me irrita até o livro que estava usando para estudar me encarando na estante, me irrita sobretudo não conseguir não fazer nada sem me transformar em um bloco de culpa com braços e pernas.

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Perdi o que ia escrever a partir dessa irritação com a falta de luz do dia, sempre acontece isso quando deixo o texto para terminar depois. Estou lendo a biografia da Mary Shelley e cheguei no ponto em que o pai dela a encoraja a levar a sério a profissão de escritora depois que seu marido morreu em um naufrágio na Itália. Eu não sei até que ponto consigo ver a literatura como profissão. Certamente seria ótimo ganhar dinheiro pelas mentiras que escrevo, mas me parece mais acertado assumir o rótulo de escritora como uma forma de identidade, talvez essa que eu busco tão incansavelmente, do que como uma hashtag do LinkedIn. Me vem o medo de ser, no fundo, uma romântica: sacralizando a escrita que não pode se misturar com a mundana necessidade de dinheiro.

Fazem anos que luto com a contradição de querer me apresentar como escritora e sentir culpa (ou vergonha?) de falar assim, porque sinto que só pode fazer isso quem teve esse rótulo validado pela opinião pública. E escrever é, sem dúvida, a única coisa que eu tenho certeza de que faço direito. Duvido de absolutamente todo o resto, desde falar e respirar até falar outras línguas e ser boa para os outros. Ontem, levei um texto meu para a sessão de terapia. Mais tarde, escrevendo no meu caderno (que não chamo de diário porque tenho preconceito), vi que isso podia significar duas coisas, escritas com as mesmas palavras em português, minha língua pela qual ando mais apaixonada do que nunca.

Posso tratar-me como escritora.

Tratar-me, chamar-me, nomear-me. Tratar-me, aliviar minha dor de existir.

Levar o que escrevo para a análise, um outro significado da expressão análise textual, que é em si toda uma disciplina da qual entendo dois por cento, apesar de.

Quando percebi o duplo significado, fiquei tão excitada que desenhei setas apontando as palavras. Agora, escrevendo sobre elas, não vejo mais do que uma associação banal. Não importa. O momento existiu, por causa da escrita, quando praticamente nada me excita, para o meu desespero. São quase oito horas da noite e eu tenho as cortinas fechadas, deve estar escuro lá fora, mas eu não vi escurecer. Estava escrevendo.

Isabela Torezan

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