Dublinense – quinze

Eu não tenho medo de morrer. Nunca tive. Não acredito em inferno, purgatório ou qualquer coisa ruim que suceda a morte, logo não há de que ter medo. Na verdade, não acredito nem em alguma coisa boa que suceda a morte, isso talvez fosse motivo para medo. Do infinito tenho medo, do vazio, da continuação indeterminada sem fim visível. Ontem passei por missionários religiosos segurando panfletos que diziam FREE BIBLE COURSE e ENJOY LIFE FOREVER. As propagandas na Irlanda são péssimas, este povo carece horrivelmente de talento para o marketing, mas essa propaganda não é só ruim, é assustadora. Life forever? Nada mais assustador do que viver para sempre, disso tenho medo.

Se vidas finitas e curtas já são assustadoras quando é tão difícil dar sentido a cada dia, a cada ano, a cada gesto, imagine continuar tentando dar um propósito às coisas eternamente. Isso definitivamente não é sustentável. Também tenho medo de geladeiras vazias, de livros faltando páginas, de uma tela em branco do Word. Tenho medo de me perder na rua, de não saber o que as pessoas pensam, tenho medo do mês que vem.

O medo do desconhecido, do que não é definido, é algo natural, eu acho. E é por isso que não entendo muito o medo da morte, ou, ao menos, ele não faz sentido para mim. Morte não é desconhecida, existe desde que existe vida e todo mundo sabe muito bem o que é. Dos medos que listei até aqui nesse texto, o do mês que vem é o que mais me aterroriza atualmente. E do seguinte ao que vem, e do outro também. Medo desse futuro cor de buraco de cerca com gosto de nuvem.

Mas nem todos os medos são ruins, o da página em branco no Word, por exemplo, é um medo geralmente bem produtivo. Já lutei com a página em branco tantas vezes que o medo é quase reconfortante, de tão familiar. Hum, só que acabo de reler o primeiro parágrafo e pensei que, escrevendo, eu provavelmente vou viver para sempre. Ou quase sempre, sabemos que a Terra não vai durar para sempre, estamos cuidando de destruí-la muito bem. A não ser que uma pane mundial de computadores ou uma rebelião de robôs decididos a apagar todos os registros humanos atinja a Terra, tudo o que eu escrevo vai estar por aí em algum lugar depois que eu morrer fisicamente. Um pobre ser humano vivendo daqui a milhares de anos, se chegarmos a milhares de anos, vai me ler e estarei viva. Socorro. Preferia ver uma geladeira vazia agora.

Isabela Torezan

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