Esse sentimento novo que eu não consegui dar nome ainda, que não é só saudade nem medo nem confusão nem deslocamento nem estranheza nem incômodo nem falta de ar, mas é uma mistura de tudo isso. Hoje uma situação reproduziu isso tão bem que quase achei que ia conseguir dar nome. Descrever o que houve vai ser difícil, mas vou tentar. Já fui ao jardim chamado Iveagh Gardens diversas vezes, entrando sempre pelo mesmo portão (há mais de um) e geralmente ando por quase toda a extensão dele, não é muito grande. Passo pelo mini labirinto de arbustos, o jardim de rosas sem rosas nessa época do ano, as fontes de pedra, o gramado onde sempre correm cachorros. É um jardim vitoriano com ares de O Jardim Secreto. Fica entre muros altos de pedra recobertos por hera que isolam o lugar da cidade. Caminho acompanhando os muros que ficam à direita do portão pelo qual entro, passo pelo centro, mas nunca tinha andado no caminho ladeado pelos muros da esquerda. Não preciso passar por ali para chegar no meu portão, tem um gramado um tanto lamacento separando esse caminho do restante do jardim. Porque queria andar um pouco a mais, dessa vez fui por ali.
O primeiro choque foi de repente ver um novo portão. Certo, eu ainda não tinha pisado nesse lado do jardim, mas não são distâncias grandes, como eu poderia nunca ter notado que do outro lado do gramado tinha outro portão? Menor que o que eu sempre uso, é verdade, mas ainda assim um portão. Pensei que se este fosse o Labirinto do David Bowie e não O Jardim Secreto esse portão poderia ter aparecido agora mesmo na parede, só porque eu estava passando. Então vi que havia uma placa de ferro nele, que dizia “ ‘It was peaceful there and unfamiliar. Not like almost every other square inch in Dublin’ – Maeve Binchy, Circle of Friends.”. Uma certeza poderosa de que eu já tinha visto essa placa bateu com força e quase me derruba no chão. Retardou em vários segundos meu próximo movimento óbvio, que foi sair pelo novo portão.
Ou não sair. Porque essa passagem não dava para a rua, como todas as outras. Passando pelo portão de ferro, me vi em outro jardim, menor, com uma construção ao fundo. Uma estátua e uma árvore estranhamente familiares, mas também unfamiliar: eu já tinha estado ali, já tinha visto isso, mas algo estava errado, como quando vemos um bordado do avesso. A sensação foi tão ruim que não consegui continuar andando por esse “novo” jardim, dei meia volta e passei pelo portão novamente, agora em direção ao jardim maior onde estava antes. E então tudo ficou dolorosamente claro.
Olhando os Iveagh Gardens daquele ponto de vista, reproduziu-se na minha cabeça o dia em que visitei o Museu de Literatura, uma manhã fria de uma semana ruim, e no fim da visita saí pela porta dos fundos e cheguei em um jardim. O jardim que agora estava às minhas costas novamente. Vi um curioso portão de ferro, esse que eu acabava de supostamente descobrir. Passei por esse portão, e vi um gramado, e árvores, e algumas fontes de pedra ao longe. Vi os Iveagh Gardens, sem saber que o lugar se chamava isso (só fui “descobrir” que ele existia, vendo o nome em uma placa, mais de um mês depois de ir a esse museu) e o frio e a angústia ansiosa que me governava no dia me fizeram dar meia volta para sair do museu pela porta da frente.
Como eu posso ter estado tantas vezes, por tantas horas, em um lugar sem perceber que já tinha visto esse lugar antes, de outra forma? Como eu posso ter perdido essa conexão entre dois lugares em que estive, como pode na minha cabeça o jardim e o dito museu serem dois pontos completamente separados no mapa, quando dividem um muro e um portão? Olhando o jardim enquanto a manhã de quarta-feira de muitos dias atrás (o museu tem entrada gratuita às quartas-feiras) se reproduzia na minha cabeça, a sensação indefinida que tenho sentido o tempo todo subiu de algum lugar entre meu estômago e meu esôfago e preencheu tudo acima, sufocante, mais forte por estar concentrada em um único momento.
Há algo de errado com o lugar e comigo mesma ao mesmo tempo, me sinto enganada pelo portão que surgiu sem aviso, mas também sinto culpa por não enxergar. Indignada, confusa, encarei um dos mapas do jardim que ficam perto de todos os portões, e a marca “you are here” desbotada pela chuva me parecia um insulto, uma frase sarcástica. Estou aqui, e não estou, porque não sei explicar o aqui, nem mesmo sei o que estou vendo, um jardim inteiro muda de lugar no meu espaço-tempo sem que eu possa fazer nada, lutar contra, controlar, um estado de permanente deslocamento porque não posso confiar em algo tão instável.
Ah, seria horrível precisar simplesmente admitir que não me adaptei. Tenho feito isso quando sou obrigada a falar do assunto em inglês. Mas o português sabe a verdade, ainda que tenha falhado em me dar um nome para a coisa. Minha língua sabe que há algo muito mais complexo aqui, que não sou uma peça de quebra cabeça tentando me encaixar no lugar errado, mas um ponto em um espaço que foi invertido depois de cortado ao meio enquanto eu mesma giro cento e oitenta graus e fecho os olhos e abro de novo e estou no mesmo lugar que é outro lugar porém ao avesso que na verdade é o lado certo de um outro lugar em que estou mas não vejo porque em vez disso estou vendo uma imagem que já não existe e no fim tento voltar ao ponto de partida ver se encontro uma placa com o nome desse lugar.
Isabela Torezan
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