Dublinense – dezessete

Um cara me parou a caminho do parque perguntando se podia me fazer uma pergunta, apenas uma pergunta. Não, eu não queria uma pergunta aqui, agora, nessa rua lotada de gente num domingo de tarde, porque ele me escolheu? Casaco preto fechado indo das minhas canelas até o queixo, óculos escuros em pleno dia nublado, botas grossas sujas e o inevitável cabelo despenteado, eu com certeza não era a imagem da receptividade. Pega de surpresa, não consegui pensar numa resposta negativa educada rápido o suficiente e então ele estava agitando uma surrada Bíblia marrom cheia de marcadores e me contando a chocante informação de que um dia este lugar ia desaparecer. Certo. E que nossos corpos são finitos e em duzentos anos nada, absolutamente nada do que eu sou vai existir. Falhei em demonstrar preocupação, ele não pareceu se importar. O aparelho dental dele refletia um raio de sol efêmero e isso sim estava me dando medo. Há algo de assustador em adultos usando aparelho, na minha opinião. Peço perdão aos adultos que agora tem a oportunidade que não tiveram quando crianças de corrigir um problema, mas não consigo evitar. Pode ser resultado de algum filme que vi em que um adulto do mal com aparelho nos dentes, sempre me causa uma sensação ruim. Agora ele revelava que há um jeito de evitar esse desaparecimento absoluto. De salvar a minha alma. Salvar minha alma? Eu nem ao mesmo sei se tenho uma, e se tiver com certeza não estou interessada em mantê-la perambulando por aí por mais de duzentos anos. Mas para ele, a perspectiva de se eternizar fazendo algo tão fácil como escutar a palavra de deus só pode ser incrivelmente atrativa para qualquer um. Deus fez isso muito simples, basta prestar atenção ao que ele disse e estaremos salvos desse Horror. Bom, me desculpe, eu não tenho tempo para ouvir a palavra mágica hoje, eu tenho que encontrar Alguém. Alguém é a pessoa que eu sempre estou indo encontrar quando preciso me livrar desses interruptores de caminho. Aqui, tenho encontros com Alguém com bastante frequência, quando não é um missionário fanático é um deprimente promotor de alguma ONG. Saí muito apressada rumo ao encontro com o Alguém (o nome dele aqui é Someone).

No parque, minhas pernas começaram a me lembrar de que eu já tinha andado dezessete mil passos desde que acordei e comecei a procurar onde sentar. Nenhum banco vazio à vista, sentei-me ao pé de uma árvore e peguei o livro na bolsa. Nada confortável, meu traseiro doía, o casaco parecia grosso demais para o dia mas eu abri o zíper e senti frio, e a urgência apocalíptica do cavaleiro da eternidade com aparelho nos dentes tinha piorado meu humor. Mas o livro que estou lendo é muito bom, Lost in Translation de Eva Hoffman, e a voz irônica desta polonesa no exílio canadense tem me feito boa companhia nos momentos de desconforto. Comecei a ler. Alguns parágrafos depois, o som de uma risada infantil me interrompeu, e parei para olhar a família com quem compartilhava o gramado.

Pai, mãe e um garotinho de no máximo quatro anos, indianos, a julgar pela conversa entre o homem e a mulher. O menino se divertia correndo na maior velocidade que conseguia com suas pernas curtinhas, e seus pais se alternavam “fugindo” do filho e o “perseguindo” de volta, sempre regulando a própria velocidade para garantir que a brincadeira durasse mais. Ambos já pareciam cansados, mas o menino não dava mostras de querer parar, e também de deixar de achar aquilo muito engraçado e divertido. Ele ria sem parar, a risada alegre, redonda e limpa como uma bolha de sabão, que tinha interrompido minha leitura. Mudando a trajetória da sua “fuga”, ele passou correndo mais perto de mim, sentada no chão claramente não fazendo o que tinha me proposto a fazer, ler, porque observava a família. O pai passou correndo em seguida, e lançou um “sorry” na minha direção, um sorriso tímido no rosto. Desculpá-lo? Pelo quê? Balancei a cabeça de um lado para o outro vigorosamente, tentando expressar o quanto eu tinha certeza de que ele e seu filho não tinham absolutamente nada do que se desculpar.

A risada do garoto continua ecoando na minha cabeça horas depois, quando sento para escrever sobre a pena que, no final, senti do missionário que tentou com tanto ardor me convencer da possibilidade de uma eternidade, de uma alma infinita, para me perder para uma família que, sem tentar, me deixou mais próxima de acreditar nessas coisas do que ele jamais seria capaz com seu levantamento de Bíblia. Escrevendo, me veio uma vontade incontrolável de chorar, e choro tudo o que deveria chorar se tivesse todo aquele medo de desaparecer. Não sei por que estou chorando, não sei exatamente o que vi nessa família e nem ao mesmo sei se estou feliz ou triste. Mas continuo escutando a risada do garoto, e perceber que não consigo escrever a risada me incomoda, e choro mais.

O que o missionário vê como algo tão desejável é driblar o Tempo, é não seguir as regras de algo que é inevitavelmente finito. Aquela família, sem nenhuma intenção de fazer isso, me parecia ter conseguido. Eles corriam num tempo suspendido, eles pisavam o mesmo gramado que eu e no entanto não estavam apenas ali, estavam tão envoltos em sua existência luminosa, alheios ao tempo comum passando, que observá-los era ter certeza de que aquela felicidade, aquela harmonia, era imortal e infinita. Na minha cabeça, aquela mãe está eternamente abraçando o filho que correu até ela rindo, uma risada que ecoa infinitamente, almas eternas correndo pelo gramado na minha frente enquanto eu, parada, as nádegas doendo, sem fazer nada, me movo muito mais rápido nesse Tempo que não consigo interromper.

Isabela Torezan

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