Dublinense – dezoito

Um culto satânico, terapia cromática, uma lareira falsa, uma chocadeira ou só um abajur cafona? É a terceira sacada contando da esquerda para a direita no prédio que impede que a visão da minha janela seja mais interessante. Para alguém com tendências voyeuristas, é interessante o suficiente. Tem a família no andar térreo cujo pai é entregador do Deliveroo, devem ser brasileiros porque de acordo com minhas pesquisas empíricas todo entregador do Deliveroo em Dublin é brasileiro. Tem a mãe e a filha pequena no segundo andar, um dia a menina me deu tchau. E tem o mistério do apartamento com sacada que se ilumina de vermelho no terceiro andar.

Moram ali, segundo minhas observações, dois jovens rapazes e uma senhorinha. É uma configuração familiar um tanto curiosa, e eles nunca são vistos juntos. Ou é a senhorinha, ou os dois moços. A senhorinha sempre curvada, usando várias roupas de lã e um cachecol, sua atividade favorita é atirar fatias de pão branco para as gaivotas na grama lá embaixo. Algumas gaivotas aprenderam a pegar as fatias no ar. Ela joga um saco inteiro de pão, essas gaivotas comem mais do que muitos mendigos que moram a poucas quadras daqui.

Os rapazes usam conjuntos de moletom esportivo e estão sempre fumando. Eles são mais interessantes, porque o mistério da luz vermelha é sempre no turno deles. A primeira vez que notei foi no início do inverno, e aceitei a novidade como parte da decoração de Natal. Não era decoração de Natal, estamos em fim de fevereiro, todos os outros elementos de decoração foram removidos dessa e de outras sacadas, e a luz vermelha continua aparecendo.

Ela emana da parede que não consigo ver da minha janela, e os moletons claros dos dois ficam escarlate. Obviamente não é um fogo de verdade, a luz não seria vermelha, mas pensei em uma lareira falsa uma vez. Improvável. Nenhum dos dois tem cara de que gastaria dinheiro com uma lareira de mentira, e lareiras de mentira em um lugar onde as de verdade tem real serventia não faz sentido nenhum. A teoria da terapia cromática foi excluída com a mesma rapidez, vermelho não é uma cor muito recomendada para terapia nenhuma. Uma vez coloquei um balão chinês vermelho no meu quarto e toda vez que acendia a luz sentia vontade de matar alguém.

A hipótese do culto satânico explicaria porque a luz só aparece quando eles estão lá, e não a senhorinha. Provavelmente não querem chocar a pobre mulher. Mas, também, de onde tirei a ideia de que cultos satânicos são iluminados em vermelho? E nenhum dos dois parece muito engajado em atividade nenhuma, com certeza não uma atividade religiosa. Eles sempre parecem relaxados e desatentos, olhando a rua e não a luz, lentamente sujando seus pulmões com a fumaça dos cigarros.

A senhorinha parece alguém que compraria um abajur cafona. Só que se fosse dela a fonte da luz, ela acenderia quando sai na sacada, e não os dois jovens. E ela só sai de dia, na verdade. O turno dos jovens e sua luz vermelha é de noite. Anteontem, eu observava a sacada iluminada quando só um dos jovens fumantes estava ali, encostado na grade, seu lado esquerdo vermelho como um semáforo fechado. Ele me viu e começou a me encarar também. Apesar do meu terror de cruzar o olhar com estranhos, não desviei, senti que era um desafio do homem vermelho. Se fosse um filme, agora era o momento em que ele ia dar uma risada macabra  e uma luz  vermelha ia se acender no meu quarto. Minha coragem durou pouco mais de um minuto. Fingi que algo dentro do quarto requeria minha atenção e deixei o outro vencer a batalha.

Com a cortina fechada, deitada no escuro e preocupada com a quantidade de coisas sem resposta que carrego, vejo um espectro da luz vermelha que se esgueira entre o blecaute e a parede. E decido que essa não vai ser mais uma das coisas sem resposta. Por que seria, se tenho o poder de saber a resposta na ponta dos dedos, literalmente.

A luz vermelha é de uma chocadeira elétrica. Mas chocadeiras elétricas não emitem luz vermelha, dirão. Não se o ovo que se quer chocar é de uma ave ou réptil comum. Mas os jovens da sacada em frente estão chocando um ovo de dragão que compraram em uma loja de antiguidades que fechou e vendeu tudo pela metade do preço. Ovos de dragão, este em especial, precisam ser chocados por um bom tempo (minha observação me permitirá, com sorte, saber quanto tempo) em uma chocadeira que emite luz vermelha.

A senhorinha é contra criar animais de estimação e desliga a chocadeira toda vez que sai na sacada. O jovem me encarou tão seguro de si porque achava que seu mistério estava salvo, que seu segredo estava seguro. Eu fingi que me intimidei porque é assim que nós, escritores, conseguimos continuar andando por aí. Se descobrissem que sabemos de tudo, tudo, o que seria de nós?

Isabela Torezan

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