Uma resenha?

Houve uma época em que eu resenhava todos, ou quase todos, os livros que lia. Resenhar livros é um exercício prazeroso, e teci muitos comentários sobre autores diversos em textos que gosto de pensar como resenhas não convencionais, filhas do casamento de crítica literária com crônica. Vai ver não eram nada disso; apenas minha opinião desimportante descrita com um vocabulário particular.

Neste ano, 2023, tinha decidido voltar a escrever resenhas. Estamos em meio de março, a lista de livros lidos já conta quatro títulos, e não escrevi resenha nenhuma. Não foi apenas por preguiça, falta de tempo, indisposição e vontade de escrever outras coisas no lugar, foi por tudo isso junto. Aí hoje, me preparando para começar o quinto livro do ano, notei que a seleção de livros que li até agora foi bastante incomum, se não inédita na minha história de leitora. E decidi resenhar isso. Então esta é uma resenha de títulos, no sentido literal da expressão. Pode-se resenhar uma seleção de ensaios, de poemas, de contos, certo? Pois estou resenhando minha seleção de títulos de janeiro a março de 2023.

Comecei o ano lendo Mary Shelley, uma biografia da autora de Frankenstein escrita por Miranda Seimour. Raramente leio biografias. Na verdade, essa foi a segunda biografia que li na vida, a primeira foi a do David Bowie. Já li e reli On Writing, do Stephen King, que muitos consideram parte autobiográfico, mas não é uma biografia no sentido estrito. Resolvi ler sobre a vida da Mary Shelley porque, lendo o verbete na Wikipedia, me pareceu suficientemente parecida com uma história fictícia, e o que me manteve afastada de biografias até hoje foi o fato de que são histórias reais. A biografia do Bowie, na verdade, li porque ler uma biografia era requerimento de uma disciplina da faculdade (de Jornalismo, deixemos as contradições das minhas escolhas para outro texto). Tive minhas expectativas atendidas, Mary Shelley era tão dramática (segundo sua biógrafa) que se o livro fosse um romance eu criticaria a construção da personagem como inverossímil. Não sendo leitora de biografias, não me julgo qualificada para criticar essa, e não era meu objetivo aqui. Na expectativa de ser um pouco mais útil a leitores, posso dizer, pelo menos, que o livro é enorme e que o detalhamento é suficiente para satisfazer quem precisa disso para crer na história e também para dar sono em quem costuma crer com muito menos.

Antes ainda de acabar o calhamaço, comecei a ler Lost in translation, de Eva Hoffman. De novo, uma não-ficção, e guarda uma semelhança com a primeira biografia que li: era leitura obrigatória para uma disciplina optativa do mestrado. Mas gostei tanto do livro que resolvi incluí-lo na minha lista oficial de leituras como se tivesse escolhido ele sozinha. Não sei se é considerado uma autobiografia, ela não foca tanto em contar a vida dela, mas em narrar uma jornada particular em busca de identidade própria que, de tão bem escrita, permite, ouso dizer, que leitores muito distantes do perfil “polonesa que emigrou criança para o Canadá fugindo da perseguição aos judeus” consiga se identificar com o texto. Adorei, mas reconheço que não é nada raro: “apenas” excelente literatura, uma mulher que domina sua profissão.

Em seguida li o compacto C’est qu’il disent ou rien, de Annie Ernaux. De novo, não ficção! O que estava acontecendo com a lista desse ano? Escolhi esse pelo motivo clássico de ler autores ganhadores do Nobel e porque tinha esse em francês na biblioteca e eu queria testar a sobrevivência da minha habilidade de leitura em francês. Diagnóstico: moribunda. Sou teimosa o suficiente para seguir lendo atropelando as palavras que não sei, em vez de procurar tudo no dicionário, o que é uma tática controversa entre professores de línguas, mas a única que consigo usar. Não sei se entendi tudo e não pretendo saber, além do mais pode-se muito bem tomar o livro como uma ficção (não parece haver muito consenso sobre o nível de autobiografamento em que Ernaux é colocada). Nesse caso, qualquer coisa que eu tiver entendido é válido.

Por fim, o quarto livro, porque o quinto já é um romance de Kazuo Ishiguro. Li, depois da Ernaux, uma coleção de textos da Virginia Woolf chamada The death of the moth and other essays. Alguns textos são chatíssimos, sinto não poder dizer de outro jeito, mas devem ter rendido alguns tostões para Virginia como crítica literária e isso basta para dar valor a eles (não monetário: só não consigo deixar de invejar quem viveu de escrever). Mas o livro tem joias como The middlebrow e Professions for women. E também peguei esse na biblioteca, uma edição bem lida e orelhada com anotações que me lançaram na comum reflexão sobre relações entre pessoas e livros. Sempre interessante.

Enquanto olho a lista numerada que faço no bloco de notas do celular, penso que o fato de ter, de maneira inédita, começado um ano lendo quatro livros de não ficção seguidos pode ser explicado pela falta de planejamento a que acabei cedendo. Escolhi esses livros em impulsos, sem pensar muito, e, no caso da Hoffman, pensaram por mim. Não é o que costumo fazer, geralmente gasto horas decidindo a próxima leitura, considerando cuidadosamente cada título na minha enorme lista de “livros a ler”. Sim, eu tenho muitas listas. Sou quase a favor de declarar a lista um gênero literário. Ceder a impulsos foi possível com a disponibilidade de uma biblioteca, livros de graça. Quando preciso comprar o livro para ter acesso a ele, as decisões precisam ser mais bem trabalhadas.

Claro, não é a primeira vez que li livros a que cheguei meio por acaso ou totalmente acidentalmente. E inclusive sempre valorizei muito esse tipo de encontro fortuito. Mas achei interessante e suspeito esse empurrão do acaso que me fez ficar mais de 3 meses sem ler mentiras (ou sem ler mentiras que são vendidas como tal). Agradeço o acaso, os impulsos e a professora Alex Lukes, mas está na hora de voltar a ler sobre coisas que não aconteceram e que, ainda assim, ancoram minha existência mais do que qualquer fato do mundo real.

Isabela Torezan

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