Resenha de The remains of the day
Eu esperava o mesmo cheiro de estante de biblioteca, cheiro de poeira sobre papel envelhecido, mas o livro cheirava a farmácia. Um aroma de gaze antisséptica que saía de páginas branco-creme, macias e sem orelhas. A capa de tecido vermelho, lisa e sem o título, contribuía para o aspecto ascético e algo hospitalar do livro. Em delicadas letras douradas, “The remains of the day – Kazuo Ishiguro” estava estampado na lombada. O livro já foi traduzido para o português por José Rubens Siqueira (chama-se Os vestígios do dia), mas estou aproveitando o enorme acervo de livros ao meu alcance na biblioteca da Trinity enquanto posso.
Por que começar falando da aparência do livro, da impressão física? Certamente não é essa a primeira preocupação de alguém que lê uma resenha, a não ser, talvez, que esse alguém seja designer gráfica e tenha particular interesse por capas. Além disso, livros frequentemente são reeditados, reimpressos e traduzidos, e então comentar sobre a aparência de uma edição específica tem ainda menos sentido para leitores. Vejo que nem ao menos nomeei a editora responsável por esse trabalho admirável (Everyman’s Library, pronto).
Pois essa edição específica e suas qualidades sensoriais representam, a meu ver, a personalidade do personagem principal, o mordomo Stevens. Ao menos, em parte. Stevens é também o narrador em primeira pessoa da história, que se resume (?) à narrativa de uma viagem de carro pelo interior da Inglaterra, no Ford emprestado de seu patrão. Stevens é a imagem caricatural do mordomo inglês, imperturbável, impassível, imune a emoções, organizado como uma estante de farmácia e racional como um cirurgião em ação.
Mas, não é só a parte gráfica da edição que representa o personagem. A narrativa em si é uma representação do que é Stevens, e, claro, foi escrita antes do projeto gráfico do livro ser feito, do que concluímos que a editora apenas fez um bom trabalho de interpretação intermediática. Na superfície: um relato objetivo de acontecimentos aparentemente de pouca relevância ou impacto, escritos em gramática corretíssima e um vocabulário rico porém polido. Quem está lendo com atenção começa a perceber, ou ao menos a suspeitar, o que está por baixo disso ainda antes da metade do livro.
“Por que você tem que sempre fingir?”, grita Miss Kenton, a governanta que trabalhou por muitos anos em Darlington Hall, quando o lugar ainda pertencia ao nobre que deu nome à casa. Stevens não finge, não em sua concepção. Ele apenas age da única maneira que conhece, sendo ele um mordomo inglês, filho de outro mordomo inglês, e crente de que a devoção ao trabalho, servir com perfeição e suprimir qualquer interrupção emotiva é o necessário para viver de acordo com o princípio que ele chama de dignidade. Como tudo é escondido da vista, assim como a cozinha e os quartos dos criados são escondidos da vista nessas casas, a história acaba virando um romance de mistério.
Quem realmente era este Lorde Darlington, que recebia visitas de importantes políticos de diferentes países em uma época de relações internacionais turbulentas (pós primeira guerra mundial)? Steven apresenta quase tudo como “minor incidents”, até a decisão de seu querido patrão de despedir empregadas simplesmente porque eram judias. Qual o verdadeiro status da relação entre ele e Miss Kenton, que apesar de ter motivado sua decisão de aceitar a oferta do patrão e partir em viagem ao encontro da ex-colega, aparece em seus relatos apenas como uma parceira de trabalho com quem ele teve inúmeras implicâncias? Miss Kenton saiu do quadro de funcionários da casa para se casar, há vários anos atrás, e demora para o leitor ficar sabendo mais das circunstâncias dessa reviravolta na história.
Entre os registros em tempo presente do caminho que Stevens percorre até chegar onde atualmente mora Miss Kenton (Stevens dá uma desculpa esfarrapada para não usar o nome de casada dela), há os relatos de inúmeros episódios passados de sua carreira em Darlington Hall. São peças de um quebra-cabeças que o leitor precisa montar e assim vencer a barreira colocada por Stevens para esconder da vista o enorme turbilhão que em nenhum momento ele vai admitir que existe, em nome de sua dignidade.
Em diversos momentos da leitura lembrei-me de Machado de Assis e Dom Casmurro. Bentinho e Stevens são narradores igualmente não confiáveis, por motivos diferentes. A maestria com a narrativa em primeira pessoa também une Ishiguro e Machado, em línguas diferentes. Ouso dizer que Ishiguro merece alguns pequeninos graus a mais de admiração que Machado por atingir esse estágio de domínio do texto, porque considero o português mais fácil do que o inglês de ser trabalhado, lapidado, para obter esse tipo de texto rico e cheio de camadas. Claro, minha opinião pode ser resultado somente de ter o português como língua materna e natural facilidade em moldá-la, mas é interessante lembrar que Ishiguro nasceu no Japão e inglês também não foi a primeira língua que ele aprendeu.
Este foi o segundo livro de Kazuo Ishiguro que li, e vejo a grande diferença entre este e O Gigante enterrado como um sinal de profissionalismo. Não, não pode terem sido escritos em momentos diferentes e indicarem uma evolução na carreira, mas por mostrarem a habilidade do escritor em transformar-se, e ao texto, no que o romance em questão exige. Impossível colocar um defeito no desdobramento do texto que se flexiona numa mímica perfeita dos movimentos pensados, calmos mas enrustidos, do personagem principal. Pode-se dizer também que isso demonstra apenas capacidade de dissimular, ou de inventar uma boa história (ou seja: mentir). E o que é um escritor profissional, senão alguém que dominou essa capacidade por completo?
Isabela Torezan
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