Não sei, nem quero

Resenha de We have always lived in the castle

Li uma edição de We have always lived in the castle, de Shirley Jackson, que tem um posfácio de Joyce Carol Oates. Tenho o hábito de sempre ler qualquer material extra de livros (prefácios, introduções, notas) depois de ler a história em si, mesmo que estejam no começo. Pulo introduções com medo de que sejam ruins e estraguem a leitura que nem começou. Nesse caso, sendo o posfácio um material colocado no fim, senti alívio ao pensar que mesmo leitores que não tem o meu hábito foram salvos desse texto danoso. Não tenho nada violentamente contra Joyce Carol Oates, na verdade só tentei ler um livro dela, traduzido, o Minha vida de rata. Não gostei, não terminei e nunca tentei outro.

Mas a resenha aqui não é de um livro de Joyce Carol Oates, é de um de Shirley Jackson. Escritora que só fui ler pela primeira vez agora, mas que já vejo se tornando uma daquelas de quem eu li metade da obra em menos de um ano. O posfácio, que não chamo de interpretação errada porque desacredito em certo e errado sobre literatura, é, ao menos, um exemplo do mal que excesso de objetividade pode causar a uma análise literária (na minha humilde opinião).

A história é narrada por Mary Katherine, ou Merricat, como é chamada pela irmã mais velha, Constance. As duas vivem reclusas na misteriosa mansão Blackwood, acompanhadas apenas do velho e quase demente Tio Julian, e do gato Jonas. Somos informados logo no começo que todo o resto da família está morta, um “grande caso de envenenamento”, como gosta de lembrar Tio Julian. As irmãs vivem em perfeita harmonia e tem uma divisão de tarefas muito bem definida: Merricat vai à cidade duas vezes por semana buscar comida e livros, e enfrenta a hostilidade das pessoas no lugar da irmã, que jamais sai da propriedade da família e cuida com afinco da horta e do preparo meticuloso de nutritivas refeições.

Os mistérios envolvendo a morte dos pais e da tia e o medo de Constance em deixar a casa são desenrolados aos poucos, tão devagar quanto é possível em um romance curto. A dúvida e a tentação de acreditar em Merricat e em suas mágicas e presságios são o que prendem a leitora desde o início, e, no entanto, Joyce Carol Oates destrói tudo isso com uma análise quase científica do livro. As irmãs têm agorafobia. A comida onipresente é um símbolo sexual. Retardamento mental e esquizofrenia são mencionados em relação ao comportamento incomum de Merricat. Ora, é possível, claro, que Shirley Jackson tenha mesmo criado a história como um amontoado de metáforas para uma série de problemas psicológicos e sociais, mas em que ganhamos como leitores decidindo que a intenção era essa? Sinto pena de Oates, que não conseguiu ler e acreditar que Merricat é uma feiticeira poderosa, e não uma adolescente doente.

Não estou dizendo que literatura não pode servir de material ao estudo dos tormentos humanos. Afinal, em última instância ela é sempre resultado disso, concordo. Mas ouso dizer que quase nunca é cópia, reprodução ou espelho deles. Emprestar a ficção para ilustrar um estudo da realidade é perfeitamente válido; explicar a literatura em vez de se deixar enganar por ela é assassinato do prazer.

Joyce Carol Oates ainda achou relevante destacar que Shirley Jackson morreu obesa, alcóolatra e viciada em anfetaminas, e sofrendo de agorafobia. É “irônico”, escreve ela, notar que a autora morreu logo após a publicação deste livro, neste deplorável estado de saúde, e fóbica como se “imitando” as irmãs do livro. Irônico? Ou eu tenho realmente um senso de humor similar ao de uma maçaneta de porta, ou Oates tem uma concepção um tanto inusual de ironia.

Acho terrivelmente reducionista falar do trabalho de uma escritora associando a doença dela com o que foi produto de sua genialidade, talento e criatividade. Mas tudo bem, já superei este posfácio e não vou mais brigar com Joyce Carol Oates num espaço que dediquei a Shirley Jackson. Percebe-se que tentei fazer isso desde o segundo parágrafo, mas fui distraída pela indignação.

Shirley Jackson já virou clássico da literatura mundial e não precisa de mim para recomendar que a leiam. Ter virado clássico também significa que provavelmente já foi alvo de inúmeros outros ataques como o de Oates (desculpe, foi a última vez). A boa notícia é que o livro (todo livro) vive sua vida independente disso. Quando você ler, vai ver coisas que eu não vi e acreditar em impossibilidades que não pensei, e talvez o mistério dos Blackwood para você seja um que eu jamais vou conhecer. Um sinal de talento para escrita é a capacidade de escrever uma história que é várias. E um sinal de, talvez, pouca sagacidade, é viver tentando falar de bons livros, já que isso pelo jeito nem existe como unidade. Infelizmente não consigo resistir a ser pouco sagaz, e continuarei deixando escapar o quanto me iludo (com gosto) com boa literatura.

Isabela Torezan

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