Dublinense – dezenove

A primavera aqui chegou sem fazer barulho, como que tentando não se fazer notar, uma visita que manda as bagagens na frente aos poucos e um dia chega, bem silenciosamente, e se instala num quarto. Dias depois, passa a andar pela casa. Os brotinhos de folhas e uns botões de flores começaram a aparecer há mais de um mês atrás, e observei a árvore em frente da minha janela ficar cada dia mais verde, até que o ninho de corvos que vi ser construído sumisse em meio a um muro de folhas. Esperto, esse corvo.

Agora vejo bebês e crianças pequenas todos os dias nas ruas, em qualquer lugar. Obviamente, é o clima mais ameno e as novas (ainda poucas) oportunidades de tomar sol que fazem com que os pais tirem mais seus filhos de dentro de casa. Mas percebi que vejo todos esses bebês como mais um dos sinais da primavera, brotos humanos que desabrocham nos gramados, a pele nova e tenra recebendo os primeiros raios de sol de sua incipiente existência.

Eles se parecem muito mais com as plantas renascidas do que com suas mães verdadeiras. Observo uma jovem que joga uma bolinha de borracha para o filho buscar, sem desviar o olhar da amiga com quem conversava. Uma senhora a poucos metros dali tinha acabado de fazer o mesmo para o seu cachorro. O garoto sai correndo atrás da bolinha pelo gramado, a instabilidade de suas pernas ainda sem prática tornando a corrida uma aparente grande aventura. Imagino ele caindo, as mãozinhas perfurando a terra mole e úmida, um corpo voltando ao seu elemento. Porque não acredito que essas coisas delicadas tenham saído de um invólucro ensanguentado, quando se parecem tanto com os botões que nascem de caules limpinhos e macios.

Eles, e as flores, são um lembrete do apego humano a ciclos, da alegria e do prazer de recomeços. A consciência de que cada segundo é um novo segundo, de que cada dia pode ser e trazer coisas que o anterior não era e não tinha, fica tão mais nítida e mais palpável, respirável até, com essas provas vivas de que o universo não parou ainda. É fácil se deixar enganar por uma aparente inércia. Primaveras silenciosas. Daqui a alguns dias, completo vinte e seis delas. Mais silencioso do que nunca, este recomeço é cheio de mistério. E quando não foi? Quando eu tiver certeza de algo, vou saber que parei de fazer parte desse eterno movimento. Serei matéria inerte no chão onde renascem os brotinhos.

Isabela Torezan

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