Dublinense – vinte

Não sei qual dos apps de relacionamento é mais comum na Irlanda, não poderia fazer um chute muito seguro de em qual deles aqueles dois tinham se conhecido. A posição da mesa deles era ideal para serem observados discretamente da minha. Não que eles fossem perceber que estavam sendo observados de qualquer forma, tenho certeza de que eu poderia sentar na mesa do lado e encarar ostensivamente sem ser notada. A coisa claramente não estava indo muito bem. Ambos sentiam bastante por isso e estavam profundamente entretidos com a frustração. Cada tentativa de um novo assunto era acompanhada de um sorriso tão doloroso da moça (ele estava de costas para mim) que eu sentia dor nas minhas próprias mandíbulas. Ela tomava um café gelado, ele não tomava nem comia nada.

Ele com certeza era americano, ela eu não sei, talvez russa ou alemã, o sotaque não me era muito familiar. Ela falou da cidade natal com entusiasmo, ele não tinha nada a dizer sobre a dele. Ele era fã dos filmes do diretor tal, ela só tinha visto dois e não conseguiu comentar sobre. Ela dava goles minúsculos do café gelado que já devia estar quente e diluído e nunca ia acabar. Ele cruzava os braços desconfortavelmente sobre a mesa. Eu tinha vontade de me levantar e sugerir que os dois fizessem algo esquisito ou catastrófico, tipo ela derrubar o copo de café ou ele chamá-la pelo nome errado várias vezes, porque aí poderiam usar isso como motivo para esse primeiro encontro ter sido também o último. Se continuassem sorrindo e se esforçando tanto, iam precisar admitir que tinham errado já em tentar.

Parte da culpa é do app, claro, cujo algoritmo começou tudo, mas eles não foram capazes de detectar o erro do robô. Na mesa ao lado da deles, um casal de japoneses nos seus quarenta anos desfrutava de sanduíches e bolo em meio a uma animada conversa da qual não entendi nada por ser em japonês, mas que devia ser sobre algo engraçado porque eles riam muito. Torci para que os dois frustrados não notassem a felicidade conjugal vizinha, só ia piorar o sentimento de fracasso que ambos provavelmente já estavam sentindo.

Levantei-me e saí do café consciente do nível da minha pretensão. Acho que posso observar pessoas por uns minutos e adivinhar tudo o que aconteceu com elas até chegarem ali, e a minha certeza de que a história que criei é verdadeira às vezes espanta até a mim mesma.

Sentada num banco do parque, a primeira conversa que ouvi foi a de duas moças que passavam segurando sacolinhas de hambúrguer e fritas, procurando um raro espaço livre no gramado ensolarado para sentar. Passavam rápido, só pude ouvir uma frase de uma delas e a concordância da outra:

– Esses dias eu estava pensando, o que me faz dar like no perfil de alguém? E aí percebi que no fim é sempre o sorriso.

– Sim!

O sorriso. Pensei nos sorrisos da moça frustrada e na dor que emanava deles, em vez de alegria ou simpatia. Lembrei-me do filme Pearl, que vi recentemente, e que termina com um dos sorrisos mais dolorosos e tristes do cinema. Pensei nos meus acessos de choro incontrolável e bastante dolorosos que às vezes seguem os acessos de riso. E em todas as vezes em que um sorriso não significa absolutamente nada, como quando alguém responde sorrindo “tudo, e você?” pensando que este é o pior dia da história e que nada importa menos do que como estão as outras pessoas.

O app não sabe de nada disso e continuará juntando pessoas pelos sorrisos. Eu sei de tudo isso e continuarei fazendo das pessoas meus personagens, complexos e com sorrisos em que não posso confiar.

Isabela Torezan

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