Pequeno manifesto

Resenha de Little Women

Não vejo muito sentido em eu resenhar Little Women (quando escrevo títulos em inglês, é porque li o original e não a tradução), escrito há séculos atrás e já resenhado e resumido e filmado. Não tenho a pretensão de acrescentar nenhuma análise nova dessa obra que, acho melhor começar confessando, achei chatíssima. Não é meu tipo de livro favorito, eu não esperava achar empolgante, então está tudo bem. Li pelo mesmo motivo que li coisas como Pride and Prejudice e O Corcunda de Notre-Dame: minha sede meio primitiva de leitora que gosta de crescer a lista de leitura com coisas diferentes. Aceito críticas a essa minha atitude de “ler por ler”, sei que às vezes soa como arrogância: poder falar que li, no caso de clássicos que não se encaixam no meu gosto literário. Mas, na maior parte dos casos, essa sede acaba sendo positiva e foi assim que conheci autores que acabei adorando. Lendo livros pelo impulso e instinto.

No caso de Little Women, o sofrimento para acabar de ler não foi nada que eu não conseguisse tolerar, e de quebra ainda me deu assunto para escrever, coisa com a qual estou lutando há dias. Alguma coisa aconteceu e entrei num bloqueio criativo que está demorando para sarar, e já tentei todos os remédios de costume. Paciência. Enquanto não me recupero, escrevo sobre Little Women. Não vou poder chamar de resenha de verdade porque, como disse, não tenho essa pretensão, mas dá para digitar umas coisas sobre o que a história me fez pensar.

Dá para escrever um tanto só sobre o momento do livro em que Jo decide parar de escrever as histórias sensacionalistas que vendia para revistas, por medo de ser julgada pelo Professor Bhaer, seu (ainda não revelado) par romântico. Nada me enfureceu mais nesse livro do que isso. As inúmeras passagens machistas e sofridamente patriarcais são perfeitamente toleráveis se a leitora tiver em mente que o livro é velho etecétera etecétera. Mas Jo decidir parar de escrever suas histórias que supostamente só tinham valor comercial, não artístico, e não contribuíam para a edificação moral dos jovens leitores, feriu minha alma militante pela democratização da literatura.

Tudo bem, podemos dizer o livro é velho etecétera etecétera para isso também, mas aí eu não teria o que escrever aqui. Na minha versão de Little Women, Jo avançaria na carreira de escritora de contos populares, ganharia cada vez mais e ficaria famosa provendo entretenimento ao povo americano. Esse problema da divisão entre o “que vende” e o “que é literatura” existe até hoje muito bem ativo, séculos depois do livro velho que já tinha esse preconceito.

São poucos os autores que conseguem ser best-seller e levados a sério por críticos literários empoeirados que no fundo desejam ser o Stephen King e comprar uma casa com dinheiro gerado por livros. Eu me contentaria por enquanto com comprar mais livros, creme de cabelo e melancias com dinheiro gerado pelos meus livros, e não faria distinção entre eles e os livros que pagam uma casa.

Se um livro de ficção vende, é porque as pessoas gostaram da história. Se elas gostaram da história, é porque ao menos uma parte dessa história falou com elas. Para ser literatura basta isso: transmitir algo incomunicável do autor para o leitor. O preço é o capitalismo que decide. Críticos empoeirados podem não gostar de um livro “comercial”, mas não deixo dizerem que não é literatura. Defenderei até romances YA que só leria sob tortura. Assim como defendo a qualidade do texto de Little Women, mesmo tendo sofrido para acabar de ler. No fim, estou aqui provando que ele é um clássico: fez alguém pensar sobre alguma coisa muito tempo depois de ter sido escrito. Literatura resiste.

Isabela Torezan

Leave a comment