Filosofia

O som do despertador do celular tocando a puxou devagar de dentro do poço de um sono sem sonhos, silencioso, sem cor e sem peso. A primeira coisa que viu foi o telefone de plástico amarelado, parcialmente cobrindo o menu do serviço de quarto. Estou em um hotel, lembrou. É estranha a sensação de lembrar que não está em casa, mesmo quando vem tão rápido assim, nem deixando muito tempo para sentir decepção. Fechou os olhos de novo e pressionou a cabeça mais fundo no travesseiro, que era bom, e cheirava a tecido fervido. Não precisava do despertador, não tinha nada a fazer até a hora de ir para o aeroporto, só depois do almoço. Mas preferia manter a rotina. Sentiria culpa de dormir mais do que julgava necessário.

Viagens a trabalho para cidades desinteressantes invariavelmente causavam um tipo estranho de impaciência. Na maior parte das vezes, eram coisas que poderiam ter sido resolvidas por e-mails e reuniões on-line. Mas os seres humanos são gregários. A maior parte deles, ao menos. Ela não era. Suspirou aliviada ao lembrar que essa vez já tinha acabado, já tinha dormido, agora só restavam algumas horas de solidão reconstituinte até estar em casa outra vez.

Ela sabia ser sociável. E muito bem, ou não seria constantemente enviada nessas viagens que sempre tinham uma carga de responsabilidade que seu chefe preferia não entregar a outras pessoas. Saber não significa gostar, e ela tolerava cada reunião e confraternização com determinação espartana. Abriu os olhos de novo. A que horas começava o café mesmo?

Às sete, respondeu a voz da recepcionista do hotel gravada na sua memória do dia anterior. Ótimo, pensou ela, tão bom quando tem café cedo. A cama macia, a perspectiva de um café da manhã farto e já pago, a reunião enfadonha deixada para trás: estava tudo bem. Então por que não estava? Por que continuava a sentir o incômodo, a sensação de peso no peito, nas pernas, que contrastava tanto com o vazio do sono do qual acabava de sair?

Essa não era uma sensação nova, e, mesmo assim, ela sabia que nunca se acostumaria. Há quanto tempo sentia isso, não sabia, isso que ela não conseguia dar nome e que às vezes chamava de tédio, às vezes de cansaço, às vezes de simples mau humor, para não ter que encontrar um nome para o que o fato de não saber o sentido das coisas provocava nela.

Quando conseguia viver sem pensar, as coisas iam bem, automáticas. Bastava prestar a mínima atenção na própria vida que o peso vinha, cimentando-a no chão: não saia daqui, não vale a pena, tudo isso é tão absolutamente sem sentido que fazer qualquer coisa, ir a qualquer lugar, é uma ação fadada ao fracasso, à falta de resultado. Nada do que ela tinha feito até hoje parecia ter real utilidade, o mundo seria exatamente o mesmo sem aquilo. Ela olhava o mundo funcionando, respirando, se mexendo: não sou eu que faço isso. Mas devia ter alguma coisa que era necessária, alguma coisa que ela pudesse fazer para deixar de ser alguém fora da máquina do mundo.

Acreditar que essa coisa existia, e que uma hora esse conhecimento viria a ela espontaneamente, era o que a fazia empurrar o peso lentamente e seguir fazendo aquelas coisas sem fundamento. Foi o que também a fez empurrar o lençol e cobertor para longe, girar os tornozelos algumas vezes, levantar. Vamos, café, pensou, talvez seja hoje. Hoje vou saber o que tenho que fazer.

A água fria da torneira limpando a pele impecável de seu rosto ainda jovem e sem sinais de rugas a trouxe mais para o dia, fechando de vez a porta para o sono sem sonhos. Gastou alguns minutos olhando a própria imagem no espelho. Não se achava bonita, mas também não feia. Era normal. Nutria um certo orgulho do rigor com que cuidava da saúde e evitava o uso de cosméticos, gostava de ver o resultado na pele lisa, macia, respirando livre.

Poucos hóspedes tinham ido tomar café tão cedo. Mas as funcionárias da cozinha já tinham preenchido a enorme mesa do buffet, e apenas iam e voltavam apressadas terminando de trazer copos, talheres e tigelas limpos. Ela encheu uma xícara de café e escolheu uma mesa num canto e fora do caminho. Deixou o cartão de acesso ao quarto marcando seu lugar junto com a xícara e foi explorar os pães e frutas. Encheu uma tigela com iogurte, colocou pedaços de mamão dentro. Com a outra mão, empilhou fatias de queijo em um prato e colocou dois pãezinhos do lado. Foi quando tentava decidir se colocava cereal na tigela com iogurte que ela viu.

Ao lado de dois grandes potes de geleia de fruta, uma pequena pilha de diminutas tigelinhas de porcelana branca pareciam quase desafiar o estado de objetos inanimados. Era isso. Que boa era a sensação de saber o que fazer. Ela sorriu, olhando as tigelinhas para geleia que não podia pegar imediatamente por ter as mãos cheias. Ela esperava que a revelação fosse vir em algum momento mais grandioso, mais marcante, mas, também, como é que seria um momento desse? Talvez nem existisse. Excitada, com uma mistura de felicidade e nervoso queimando no estômago ainda vazio, ela caminhou (leve, agora, como era leve levantar os pés e devolvê-los no chão) até a mesa do canto e depositou a tigela de iogurte e o prato. Deveria sentar primeiro, comer algo para disfarçar? Ou melhor agir imediatamente? Olhou a porta da cozinha. As funcionárias tinham terminado de preencher a mesa e tinham desaparecido de vista. Os outros dois hóspedes que tomavam café ao mesmo tempo que ela já estavam em suas mesas, do outro lado do salão, ambos homens mais velhos absortos em seus celulares.

Decidiu-se por não esperar. Caminhou decidida até a mesa novamente e tirou uma tigelinha da pilha. Melhor levar uma cheia, pensou, se enquanto isso algum dos homens acabar olhando para cá vai me ver pegando geleia, simplesmente. Encheu a tigelinha fora da pilha com geleia de morango. Enquanto pegava a cheia com a mão direita, pegou uma segunda tigelinha da pilha com a mão esquerda e, prendendo a respiração e tentando não olhar em volta e parecer suspeita, enfiou a peça no bolso da calça de moletom. A tigelinha caiu no fundo do bolso largo fazendo um peso bom de sentir. Ela caminhou o mais lentamente que conseguiu, apesar da excitação, de volta até a mesa do canto e sentou.

O bolso em que estava a tigelinha ficava voltado para a parede, ela podia colocar a mão na coxa e sentir o volume reconfortante, óbvio, simples, presente. Enfiou a mão no bolso e sentiu as bordas da tigelinha, arredondadas, macias. Satisfeita, aproximou a cadeira da mesa e dedicou-se completamente ao café da manhã. Os pãezinhos eram macios e o queijo estava fresco e leve. Ela amassou o mamão com o garfo e assistiu deliciada o iogurte ficar laranja. Como era bom extrair prazer das coisas.

Quando levantou para pegar uma segunda xícara de café, sentiu a tigelinha pesar no bolso e bater de leve contra a coxa. Olhou a própria perna discretamente e concluiu que não corria risco, a tigela era pequena o suficiente para não formar um volume suspeito e a borda da camiseta cobria em parte a protuberância. Poderia ser uma carteira ou um potinho de álcool em gel. Sentindo uma paz nunca antes experimentada e admirada do gosto diferente e pronunciado que as coisas tinham agora que sabia o que fazer, terminou de tomar o café da manhã sem temer as horas de aeroporto que tinha pela frente.

Quando estava saindo do refeitório, cartão da porta em mãos, ouviu a voz de uma das funcionárias a chamando. “Senhora? Senhora?”. Sentiu a tensão correr espinha acima, partindo da coxa onde pesava a tigelinha. Ela virou-se lentamente na direção da moça de uniforme. “Preciso anotar o número do quarto da senhora, qual é?”. Alívio. “312”, respondeu, sorrindo.

No quarto, tirou a tigelinha do bolso e colocou-a em cima da cama. Que inocente parecia aquela tigelinha, tão limpa e redonda e pequena. Se fosse um animal, seria uma pombinha. Um contraste com o ato criminoso que acabara de cometer. Iriam notar a falta de uma tigelinha?

Sim, iriam, pensou. Com sorte, iriam.

Isabela Torezan

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