Resenha de Babel: Or the Necessity of Violence: An Arcane History of the Oxford Translators’ Revolution
Depois de ter ouvido de duas pessoas que eu ia gostar de Babel, de R.F. Kuang, achei que as chances de eu realmente gostar eram altas. Não é muito comum me recomendarem livros, não sei por que. Geralmente chego neles sozinha. Mas já tive encontros muito bons com novos autores depois de recomendações de outros leitores, então gosto bastante quando alguém me recomenda um livro.
Infelizmente, Babel não foi um caso de sucesso. Eu li no original em inglês, o que me deixa falar da qualidade do texto sem medo de alguém me acusar de estar ignorando o trabalho de um(a) tradutor(a) em um livro que fala (também) sobre tradução. Tenho uma vaga noção do sucesso que o livro tem feito, prefiro não me aprofundar no assunto para não me autocensurar nas críticas. É sempre mais difícil fazer avaliações negativas de uma coisa que todo mundo amou.
Começo pela abordagem da tradução na história, já que muito provavelmente as duas recomendações que me foram feitas desse livro se devem ao fato de que estou, no momento, estudando tradução. Kuang é uma boa pesquisadora, mas minha decepção é com como ela usou esse conhecimento todo. Na história, que se passa numa realidade alternativa da Inglaterra do século 19, a tradução tem o poder de transformar barras de prata em objetos mágicos capazes de fazer coisas como acelerar trens, curar doenças e tornar jardins mais bonitos.
As barras de prata são gravadas com pares de palavras em duas línguas diferentes, e aquilo que é “perdido na tradução” entre as duas culturas cria o poder mágico que é manifestado pela prata. Um tradutor (seres poderosos, portanto) precisa falar as palavras nas duas línguas para a mágica acontecer. A história se propõe a ser uma crítica ao imperialismo britânico e ao capitalismo voraz nascente, narrando como a posse de prata e de recursos para pesquisa em tradução (centralizados na famosa Babel, o Instituto de Tradução da coroa britânica) fizeram da Inglaterra uma potência imperialista que brutalmente subjugou nações não-europeias. O foco é a China, já que Robin, o personagem principal, é chinês, mas temos também um indiano e uma francesa com raízes haitianas como segundos protagonistas.
Legal a ideia de por em destaque a impossibilidade de tradução equivalente, perfeita, e bonitinha e divertida essa associação com magia, mas… Mas é só isso. Eu acho que não deu certo usar essa propriedade mágica para colocar a tradução no centro das coisas usando de pano de fundo uma história que realmente aconteceu. A Inglaterra realmente roubou e subjugou outros países, o imperialismo realmente foi responsável pela morte de um monte de gente, a escravização de povos foi real, a exclusão social de indivíduos não-brancos acontece até hoje. Colocar barras de prata tradutórias mágicas como a sustentação desse poder todo me parece uma solução literária fraca, sem propósito.
Ela criou um paradoxo, na minha opinião: obviamente, dada a posição crítica da narrativa, a autora não tinha a intenção de desviar a atenção de ninguém do fato de que o imperialismo é simplesmente isso que parece ser, um horror que nasce da ganância vencendo o senso de humanidade. A tradução e a magia das barras de prata (que, diga-se de passagem, deixam muito a desejar em elaboração, para quem cresceu lendo Harry Potter) estão fazendo o que ali? Eu realmente não entendi aonde ela queria chegar com isso (e o livro é enorme). O enredo poderia ser facilmente reescrito sem o quesito magia, sem ficar falho nem perder sentido, e eu não gosto de elementos inúteis que parecem estar ali só para não ser uma ideia jogada fora. Nós, escritores, sempre temos ideias brilhantes que não cabem em lugar nenhum, e faz parte da profissão se acostumar a deixar elas na gaveta.
E já que falei no enredo, vamos a este. Meu problema com ele é simples: ele é previsível. Em se tratando de uma história que se passa numa realidade alternativa, as oportunidades de criar um enredo surpreendente, questionador, eram várias. Ela não aproveitou, e na verdade acho que o problema está mais nos personagens, que fizeram exatamente o que eu esperava que fizessem do começo ao fim do livro. Depois de ler as primeiras descrições de cada um, dá para prever as ações deles frente a todas as também previsíveis adversidades. Nada me deixa mais desapontada como leitora do que isso. Chegando no fim da leitura, eu começo a reler trechos, desejando ardentemente ter sido enganada, ter só me iludido achando que a história era óbvia.
Eu ainda poderia falar sobre umas pontas soltas da narrativa, mas esqueci de marcar enquanto lia, sobre trechos dramáticos que parecem escritos sob auto flagelação por alguém que não gosta de drama, e sobre o ostensivo uso caricato de notas de rodapé, mas acho que já falei mal do livro o suficiente. Pessoalmente, eu não gosto de criticar tanto um livro, ainda mais um que até mostra que foi difícil escrever.
Então vou ficar por aqui com a negatividade, e terminar com recomendações de livros que você pode ler no lugar desse, se eu fui amarga o suficiente para te desencorajar de avaliar Babel você mesmo.
Se quer ler algo que fala sobre o poder e a impossibilidade da tradução, recomendo Lost in Translation, de Eva Hoffman. Se quer ler uma história crítica ao sistema capitalista, recomendo Terráqueos, de Sayaka Murata (tradução de Rita Kohl). Se quer algo mais debochado, mas ainda com crítica ao sistema dominante atual, recomendo Solar, de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster). Se quer se distrair dos problemas do mundo lendo uma história cheia de magia, suas opções são muitas, mas deixo a indicação de 1Q84, Murakami (li a tradução para o inglês de Jay Rubin e Philip Gabriel). Se quer ler um romance situado em uma Inglaterra antiga, minha obsessão da vez é Hamnet, de Maggie O’Farrell (ok, não se passa na mesma época que Babel, mas é um livro muito bom). Se, em vez de ler sobre traduções do chinês, você quer ler uma tradução do chinês, recomendo As rãs, de Mo Yan (tradução de Amilton Reis). Se nenhuma dessas sugestões te apetecer, por favor entre em contato comigo. Farei questão de encontrar algo para você ler para compensar o crime de ter desrecomendado um livro.
Isabela Torezan
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