Resenha de Friday Black
Já escrevi alguma vez antes sobre o tanto de talento que é exigido de contistas, em comparação a romancistas. Não quis dizer que um é mais difícil que o outro, mas que são dificuldades diferentes com as quais as pessoas lidam de formas diferentes. Eu gosto muito do desafio que é escrever contos, e gosto de pensar que tenho talento para eles, para compensar minha falta de talento (ou paciência, ou força, ou vontade de comprometimento?) para escrever um romance. Então quando descubro novos bons contistas, sinto um arroubo de camaradagem, mais do que simplesmente prazer em ler algo bom, me dá vontade de conversar com a pessoa para dizer que sim, eu percebi que ela entendeu tudo.
Claro, não saio contatando todos os meus novos autores favoritos. Muito provavelmente eles querem ser deixados em paz, como eu, e se contentam em ver seus livros vendidos e resenhados. Espero que Nana Kwame Adjei-Brenyah esteja contente com a recepção de Friday Black, seu livro de estreia, porque eu acho que ele entendeu tudo. Entendeu como escrever coisas tão curtas que dizem tanto, entendeu como nocautear um leitor num espaço de tempo tão exíguo.
Outra coisa sempre muito frequentemente associada a contistas, depois do talento para a brevidade, é a consistência de estilo. Pode parecer que não, mas é mais simples para romancistas terem a liberdade de variar o estilo de escrita em diversos sentidos, do que para contistas. A vida de contista é agitada: reconstruir-se a cada novo trabalho pode ser exaustivo e difícil de fazer com qualidade.
Então quando encontro um contista que entrega surpresas completas a cada conto dentro de um mesmo livro… eu tiraria o chapéu, se usasse um. Há um fio ligando todos os contos de Friday Black (o que indica um ótimo trabalho de edição, também, é preciso reconhecer), mas Nana Kwame Adjei-Brenyah tem um poder de metamorfose fantástico. O conto Friday Black, que dá nome ao livro, e How to Sell a Jacket as Told by the IceKing, compartilham do mesmo protagonista, mas mesmo esses conseguem ter almas diferentes, entregar sensações de leitura diferentes. Adjei-Brenyah é um multiescritor, um homem com vários espíritos literários que convivem dentro da mesma cabeça.
O absurdo do racismo e da xenofobia e a fatalidade do capitalismo selvagem são pilares importantes da obra de Adjei-Brenyah, mas de forma alguma são elementos dos quais o texto depende completamente para se sustentar. Ao mostrar que pode exorcizar esses demônios pela escrita, Friday Black nos lembra do quanto a literatura, se feita com a alma, é capaz. No mínimo, se mais nada, é possível exorcizar o tédio (aquele tédio patológico, fruto da desnutrição cultural), como lembra a dedicatória logo no começo do livro:
Para a minha mãe, que disse,
“Como você pode estar entediado?
Quantos livros você escreveu?
[tradução minha]
Isabela Torezan
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