Achei curioso constatar que estive em Dublin por exatos 320 dias. Não foram 319 ou 321, mas um número redondo terminado em zero. Um resultado exato e par para o que foram dias muito inexatos e ímpares. A Dublin em que morei durante estes 320 dias não deixou de surpreender e espantar e deslocar do primeiro ao trecentésimo vigésimo dia. Isso pode significar que não me adaptei e que nunca me adaptaria, mas também significa que aprendi a viver surpresa – e o quanto isso é bem-vindo.
Quando escrevo “a Dublin em que morei”, me refiro a uma que ninguém pode visitar e que não está nos mapas. Uma cidade que não foi nem será experimentada por mais ninguém, porque é minha e vive na minha cabeça. A minha Dublin não tem nenhum pub e uma vida noturna pujante, mas tem uma casa de chá onde o tempo passa de forma diferente do exterior e pode-se tomar um bule de lapsang souchong durante três horas enquanto lá fora apenas vinte minutos se passaram. A minha Dublin tem parques com entradas que mudam de lugar de acordo com o humor do passante. E ruas sem saída que, quando querem, levam a outros lugares. Minha Dublin não é cheia de amigos e de pessoas hospitaleiras como é a que tem no mapa. Na minha, eu vi latinos e asiáticos sobrevivendo com sabedoria e europeus vivendo na ignorância da divisão que sustentam felizes. Mas também é na minha Dublin, e não na do mapa, que eu pude desfrutar da minha própria companhia de maneira jamais experimentada em nenhum outro lugar. Minha Dublin é uma entidade independente de seus habitantes, que ela transforma em meros coadjuvantes quando quer, e me coloca como a personagem principal do que quer que eu queria fazer, oferecendo o melhor espaço que ela pode para eu andar, ler, comer, observar, respirar, admirar, ouvir e criar, completamente sozinha. Na minha Dublin, assim como na do mapa, chove muito, mas na minha a chuva é sempre uma surpresa. Minha Dublin não quis que eu me acostumasse com coisas triviais e agora noto todas as mudanças no tempo com uma dose igual de espanto e admiração. O sol saindo parece mágica, as gotas de chuva são mini diamantes, o vento canta músicas do Aerosmith, poças no chão guardam arco-íris. Minha Dublin tem ainda mais cachorros do que a Dublin do mapa. Nesta Dublin onde estive por 320 dias, senti muita dor, mas também processei todo o sofrimento de uma forma que sei que não seria possível na Dublin do mapa, capital oficial da Irlanda. Porque muitas das minhas dores só se resolveram com mágica, e a Dublin do mapa é uma cidade cosmopolita perfeitamente normal e funcionando muito bem no modus operandi capitalista, surpresa nenhuma disponível. Sei como ela é porque outras pessoas me contaram. Elas podiam me ver, mesmo eu estando morando em uma Dublin diferente.
Chega ao fim, então, minha jornada em um lugar que não existe. Saio deste lugar impossível achando tudo tão estranho quanto no dia em que cheguei, machucada e sem malas; tão espantada com minha existência no espaço quanto em sete de agosto do ano passado. Mas não volto para o familiar, ao menos não para o familiar que eu antes conhecia. Jamais serei capaz de voltar a esse conhecido, depois de aprender a viver em surpresa na Dublin da minha cabeça. The end, mas o começo de uma nova história.
Isabela Torezan
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