Justo na primeira vez em que ela emprestava um livro nessa biblioteca, a reputação de leitora estragada por um atraso de dois dias. Um atraso besta ainda, poderia perfeitamente ter devolvido na data não fosse a distração que a fez marcar a quarta feira seguinte na agenda em vez da data correta. Amassando as notas da multa na mão, tentou secar a sola dos tênis no carpete ensopado da entrada. Sentiu o olhar da bibliotecária acompanhando a trilha de água que ela deixou pelo caminho mesmo assim, um rastro de umidade brilhante indo da porta até o balcão da recepção.
– Oi, boa tarde. Eu vim devolver esses livros que estão…
– Atrasados. – cortou a mulher, pegando as notas e os livros ao mesmo tempo.
Ela não achou conveniente falar mais nada. Apesar da fama que têm as bibliotecárias, ela nunca tinha conhecido nenhuma que fosse realmente intratável, e mesmo essa parecia ser uma senhora simpática. Apenas um pouco seca. Também, ela mesma com certeza se incomodaria com uma bibliotecária tagarela. Ninguém vai na biblioteca para socializar. Lugar errado.
– Tudo certo agora. Cuidado na hora de sair, viu, filha? Já escorregaram aí nessa porta hoje, chovendo desde cedo.
Bom, até chamou ela de filha. Um atraso de dois dias não deve ser muito grave, afinal. Talvez seja até comum.
– Ahmm, eu na verdade vou entrar. Vou emprestar outros livros.
A expressão da bibliotecária mudou de avó preocupada para mãe desesperada.
– Tem certeza? Não prefere voltar amanhã? Já vai escurecer logo.
Uma bibliotecária tentando dissuadir alguém de entrar na biblioteca era algo que ela nunca tinha visto. Geralmente, as pessoas precisam ser estimuladas a entrar e informadas de que bibliotecas contêm coisas mais divertidas do que enciclopédias, dicionários e obras de referência.
– Não tenho tempo de vir amanhã – ela não sabia como responder a uma quase expulsão tão estranha – Preferia pegar esses livros hoje mesmo, se a senhora não se importar.
Que absurdo. Bibliotecas têm horário de funcionamento. Dentro do horário de funcionamento, ela tinha pleno direito de ir e vir. Marchou decidia rumo às estantes de literatura estrangeira.
Lá fora, a chuva que já tinha sido suficiente para umedecer a roupa toda e o cabelo agora fazia barulho. Melhor mesmo estar ali dentro, talvez até enrolar um pouco até diminuir de novo? Ou ela chegaria encharcada em casa, a bibliotecária tinha um pouco de razão em querer evitar que ela andasse por aí no escuro, mas queria evitar um resfriado também. Hipocondria herdada do pai.
Passou a mão pelas lombadas gastas, uma sensação tão boa, de longe a melhor experiência sensual possível. Quando tinha certeza de que ninguém poderia aparecer de repente, também costumava encostar o rosto nos livros juntos, a bochecha deslizando pela aspereza das capas até o nariz encontrar o metal frio da lateral da estante. Contos russos, hoje? Deslizou mais, girou o corpo, talvez realismo francês. Não, não podia ler nada deprimente, quem sabe algum inglês com final feliz, deslizou o antebraço, e de repente a longa fita marcadora enrolada no pescoço dela.
Quis gritar e o som não saiu, claro, a fita. A cabeça entrou primeiro atravessando a estranha parede ao mesmo tempo densa e maleável, não é isso que é literatura? Surpreendente cheiro de tecido velho, não de papel. Os pés saíram do chão e o corpo seguiu a cabeça, quantas vezes não disse que preferia viver dentro de um livro? Não, mas não desse jeito, o corpo agora estranhamente dobrando ao meio e tinha quase certeza de que a dor no baixo ventre era da pressão da linha de costura unindo as outras páginas. Não posso, não posso ser só duas folhas, não sabem tudo o que fiz! Fiz tanta coisa, me deem ao menos um capítulo. Cinco minutos, talvez um pouquinho mais, era o que alguém levaria para ler quatro páginas? Estava perdendo a sensação de ter uma forma humana, o peito esmagado por uma força sem origem, os braços já parte do mesmo todo dobrável. Papel offset. Nem mesmo uma morte em pólen bold. O cheiro de tinta, a visão tinha sumido há muito, o negro de tinta. Dobrou-se toda. Toda história é incompleta, terminada a compressão ela cabia ali como se nunca tivesse sido outra coisa que não apenas parte.
A bibliotecária suspirou e, sem olhar para trás, preparou-se para encarar a chuva, munida de uma graciosa e inadequada sombrinha. Um atraso de dois dias, pensou.
Isabela Torezan
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