Tudo o que eu não vou fazer

As coisas que não acontecem são as mais sedutoras.

As coisas que eu não disse e que não ouvi. Os lugares em que não estive. As pessoas que não conheci, as sensações que não tive, tudo o que não toquei, a dor que não senti, as comidas que não provei, as coisas que não sei, as línguas que não aprendi, tudo o que não conquistei, todo afeto que não voltou, cada detalhe que deixei passar. São todos capazes de um impacto maior e mais prazeroso, ou mais dolorido, frequentemente os dois, do que tudo da vida real.

E é por isso que é tão tentador viver sonhando. Não aceito a oposição viver e sonhar, sonhar é viver e é mais que viver, na maior parte do tempo. 

É perigoso.

Nos sonhos, não tenho noção de tempo. Ou melhor, tenho uma noção de tempo diferente. Vivo anos em algumas horas, chego ao fim de um ano e registrei a passagem de um único dia. Viver sonhando é um vício nocivo para quem já tem memória ruim. 

Por muito tempo, achei que isso era meu gosto por ler e escrever. Livros me deixavam viver coisas para mim impossíveis em lugares longe de casa, escrevendo eu crio pessoas que nunca vão morrer nem evitar a minha companhia. Mas, não preciso estar lendo nem escrevendo para encher minha cabeça de imagens de alta fidelidade que vão me deixar cheia de dúvidas depois. Eu realmente não disse aquilo?

Quando reclamo da pressão do mundo por fazer, atingir, ter sucesso, conquistar, a resposta mais comum é a orientação para “celebrar as pequenas vitórias”. Tudo bem, nada contra. Mas por que não dar valor ao não feito, ao não dito, ao não atingido? Ao contrário, o ato de não tentar por em prática um desejo é frequentemente condenado. Menosprezado como “fantasia” e enfiado na gaveta de coisas de que ninguém fala. Classificado como falta de coragem para sair da zona de conforto.

Acham normal compartilhar metas, comemorar as que foram atingidas e lamentar os “fracassos”. Mas se falo de algo que desejo e expresso certeza de que nunca vou ter, sou derrotista. Pessimista. Cética. Como vocês têm tanta certeza de que a coisa real me traria mais satisfação do que o desejo por ela? Por que é negativo só querer o imaginário e não o real?

Já faz alguns anos que faço listinhas de metas para o ano seguinte, porque me dá a sensação de estar atendendo às expectativas desse culto ao real. Decidi que chega. Não vai ter lista de metas para 2025, não porque não há nada que quero atingir, mas porque quero parar de condenar meus desejos não realizados.

Tem um monte de coisa que não vou conseguir no ano que vem. Tem um monte de coisa que não vou ter nunca, tem um monte de coisa que vou morrer sem saber. O gozo da vida está também em tudo o que eu não vou fazer.

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