Faz sete anos que me formei, acabo de me dar conta. Em Jornalismo. Nunca trabalhei em um jornal, nem cheguei perto disso. Terminei a graduação convencida de que tinha feito a escolha de curso errada, sentimento que foi gradualmente se esvanecendo e dando lugar a uma convicção mais pessimista e mais revoltada de que não haveria escolha certa que me protegeria do lamentável mercado capitalista.
Acabo de entrar para um clube de escrita, e o estímulo para escrever mais traz de volta a suspeita de que se tivesse feito Letras, teria sido mais feliz. Eu sei que essa suspeita é falsa. Sinto culpa de ter odiado meu pobre diploma durante alguns anos, e quando propuseram escrever rimas no dito clube de escrita, fiz um atentado aos diplomas de Letras, dedicado ao meu de Jornalismo:
Metalinguomenagem ao meu diploma
Eu sonhei que escrevia um soneto
Esse poema tão ressonante
E gastei o primeiro quarteto
Sem escrever nada interessante
Depois sonhei que lia o poema
Que era então uma breve homenagem
A algo que já foi um problema
Mas que hoje acho vantagem
Sobram agora só dois tercetos
Para esse papel que nada sente:
O meu diploma de jornalismo
Que nunca me pagou boletos
Mas me fez quase inteligente
E me rendeu um pobre lirismo
Desde que saí da faculdade, já achei que ia viver de revisar textos, depois ia ser diplomata e desisti, e fui então engolida de vez pelo marketing, com uma breve interrupção para fazer um caríssimo mestrado em tradução. No meio disso tudo, acreditei mais e menos, e também não acreditei, que escrever literatura podia ter um papel mais central na minha vida.
Detesto o marketing mais do que detestei meu diploma, e me custou encontrar o caminho até o estado de alienação que é necessário para trabalhar com isso que é, racionalmente, a única forma de receber dinheiro pelo que escrevo. Não sei fazer muitas outras coisas fora escrever, então não me arrependo de ter investido em encontrar esse caminho.
Com sete anos de formada, não tenho o que se possa chamar de carreira, e acho que nem mesmo uma profissão. Pelo andar da carruagem, vou chegar assim mesmo aos 30, idade em que, quando adolescente, achava que estaria ganhando o Nobel de literatura ou algo similar.
Foi fácil culpar meu diploma pela minha incompetência em ser remunerada, e me redimi com o soneto. O que disse ali é verdade: hoje, acho vantagem ter feito Jornalismo e não Filosofia, ou Ciências Sociais, por exemplo, que foram opções que passaram pela minha cabeça e que teriam me dado ainda menos opções de carreira, segundo minhas pesquisas. Também é verdade que nunca paguei boletos com dinheiro de jornalista, e aprendi um tanto de coisas durante a faculdade que, depois de bem absorvidas e amadurecidas, me fizeram bem menos tonta (gosto de acreditar).
E o lirismo é pobre, paupérrimo, porque não tenho talento para o gênero. Ainda, talvez.
Na verdade, perceber que já faz tanto tempo que me formei e não usei o diploma para aproveitar meu talento para escrita me fez questionar esse talento. Não é só poesia que não sei escrever, li o que escrevi de prosa ficcional e achei horrível. Me sobram as crônicas, ensaios e resenhas de livros, que por enquanto eu ainda acho que faço direito.
E que a Virginia Woolf também fazia, além de escrever ficção bem. Será que, quando eu crescer, posso ser meia Virginia Woolf?
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