Esqueça isso de lembrar

Sou filha de psicanalista e cresci ouvindo que memória se constrói. Lembro-me de quando aprendi, deslumbrada, o que era um déjà-vu (“já visto”, em francês): uma memória inventada muito bem disfarçada de real. Vi minha mãe guardando em cima do armário um pote de vidro com granola, e, embora eu soubesse que o movimento já tinha sido feito outras vezes, era forte a sensação de me lembrar exatamente daquele momento, como se cada detalhe daqueles poucos segundos, o ângulo do braço da minha mãe, a quantidade de granola dentro do pote, o som que o vidro fez batendo na madeira, tudo, já tinha existido uma vez e eu já tinha reparado em tudo isso. 

Disse para a minha mãe que estava tendo essas estranhas lembranças com frequência. Não acrescentei, por ser uma criança bastante temerosa da censura ou descrédito dos pais, que estava com medo de ter algum problema sério de memória, uma vez que, na maior parte das vezes, eu tinha quase certeza de que estava me lembrando errado e aquelas coisas nunca tinham acontecido. Minha mãe então me explicou o que era um déjà-vu e que eram normais, todo mundo tinha. Ah. Todo mundo inventa memórias sem querer, que bom. 

Cresci mais e fui aprendendo outros níveis de invenção da memória, e também de seu desaparecimento. Descobri que podia, com esforço adequado, me esquecer de coisas das quais não queria lembrar. E, se essas memórias voltassem, eu podia guardá-las na gaveta das memórias criadas e era quase como se nunca tivessem existido. Também descobri formas de me lembrar para sempre de coisas que não queria esquecer, e acho que deve ter sido nesse período que terminei de me convencer de que memória é algo muito mais próximo de um quadro de giz sendo sempre rabiscado e apagado do que de um livro impresso em tinta. 

Vejam bem, eu dependo de lembretes programados no celular para me lembrar de fazer atividades simples. A julgar por isso, tenho péssima memória. Mas, consigo me lembrar de um livro que li há muitos anos, com a imagem da capa na minha cabeça, sei a cor e tamanho da lombada, qual a tipografia do título e o tipo de papel. Tenho ótima memória, então?

Ninguém “tem” memória, nem boa, nem ruim. Porque ela não existe, a priori. Mesmo uma lembrança simples e recente, como o que comi hoje no café da manhã, só existe porque alguma parte do meu cérebro julgou necessário criar esse registro. Temos certo controle do que lembramos, como aprendi na adolescência, mas não total, como indicam essas pequenas lembranças naturais. 

Memória é uma coisa volátil, mutante, sem forma, sem regras e muito mais artística do que científica. Mais subjetiva que objetiva, mais música do que toque de telefone. Acho que é, aliás, daí que vem o famoso medo de morrer. Depois da morte somos só memória, e que existência mais instável poderia haver? Podem se lembrar de tudo o que fizemos e dissemos, ou de nada, ou lembrar de coisas que não dissemos, e tudo isso pode ser igualmente assustador se estamos presos no pós-morte, sem chance de arrancar o giz da mão dos vivos e corrigir os rabiscos.

Não tenho medo algum de morrer, talvez por já ter percebido o quão pouco real é a memória sobre mim, mesmo em vida. Depois de morta, não vai mudar muita coisa. Tenho plena consciência, por exemplo, de que a memória do pote de granola que enfeita esse texto pode ter sido inteiramente inventada. Mãe, isso aconteceu ou jamais foi visto?

Texto escrito no Clube de Escrita da Editora Outra, na semana de tema “memória”

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