A pequena, porém excelente, rede de apoio que me sustenta inclui meu querido cunhado João Pedro, cuja reação à notícia da minha demissão foi me enviar duas recomendações de filmes de horror envolvendo empresas. Impossibilitada de adiantar meu retorno no psiquiatra (agenda cheia, tá todo mundo mal), encerrei este terceiro dia pós-choque assistindo a um banho de sangue corporativo.
Sinto-me melhor e há uma explicação quase racional para essa estranheza subjetiva. Percebo, sentindo o corpo relaxar ao assistir à fúria mortal de uma jovem mulher até então avessa à violência, que aprender a sentir raiva talvez fosse um remédio tão eficaz quando os comprimidos supostamente destinados a tratar depressão.
Uma empresa que pratica pejotização e uma chefe imatura conseguiram, com uma demissão justificada apenas pela minha recusa em fingir gostar de reuniões online de integração de colaboradores, destruir vários meses de esforço em construir uma frágil autoestima. Garantiram-me que meu trabalho é excelente, mas como não é isso o mais importante (?), meus serviços estavam dispensados a partir daquela segunda-feira. Até a sexta-feira anterior, nem passava pela minha cabeça a possibilidade de ser demitida (e, aparentemente, meus colegas foram igualmente surpreendidos).
O choque me impediu de chorar e de sentir basicamente qualquer coisa, mas no dia seguinte consegui abrir as torneiras e, depois disso, instalou-se a clássica vontade de me transformar em uma estátua de jardim, imóvel, sem precisar respirar e olhando eternamente o horizonte.
Vários meses de dedicação em entregar o melhor trabalho possível foram desprezados e desqualificados porque tenho uma opinião diferente da já mencionada chefia e sou estúpida o suficiente para ser eu mesma. Eu já devia ter aprendido, com meus fracassos sociais, que isso não dá certo.
E, com tanta violência que me fez sentir novamente que todo esforço meu é inválido (melhor ser estátua de jardim, portanto), consigo pensar em violência contra a pessoa que tomou essa decisão precipitada e cheia de descaso? Não. Não consigo desejar mal a ela, não consigo querer que a empresa quebre, não consigo nem desejar uma dor de cabeça para o CEO. Sei que se me fosse dada uma oportunidade perfeita de acabar com a carreira dessas pessoas de forma anônima e totalmente segura, eu recusaria. Porque sou incapaz de dar qualquer forma à minha raiva. Não se enganem: ela existe. E é enorme, um emaranhado de sentimentos violentos associados, que nunca consigo moldar e direcionar a nada e a ninguém. Essa raiva incha e me preenche e me deixa pesada como uma estátua de jardim feita de cimento.
Eu nunca vou ser a moça do filme de horror, que quando atinge os limites de resiliência humana, canaliza toda a raiva para fora e destrói a cabeça de seu ofensor com golpes de machado (ou sei lá que pedaço de escritório era aquele). Interpretem isso metaforicamente, por favor. Quero dizer que não sou capaz de levantar nem a minha voz contra ninguém, e não consigo nem mesmo formular golpes em pensamento (não, não é culpa cristã, nasci e cresci ateia).
Não saber fazer isso alimenta a sensação de fraqueza, de impotência, de desimportância, que acompanha a maioria dos deprimidos (acredito eu). E assim concluo minha explicação do porquê pegar violência emprestada de filmes de horror tem efeito na saúde mental. Se não entendeu, só posso sugerir que experimente na próxima vez que se sentir sufocada por raiva reprimida.
Edit: depois de duas pessoas terem me perguntado que filme é esse, deixo aqui o link do trailer.
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