Isso é mágica

É fácil conquistar uma leitora escrevendo coisas com que ela se identifica. Difícil é a arte de agradar (a mim, leitora exigente) com um texto que fala de coisas que a tal leitora não sente nem pensa. Acabei de comprar e ler É preciso dizer as palavras mágicas, da Amanda Damasio, e o que pensei ao terminar foi “não sei do que ela está falando, mas entendi tudo”. 

Aparentemente, a única coisa que eu e a autora temos em comum é a crença no poder das palavras. De resto, somos duas linhas paralelas que não se encontram: ela teme (e adora) morte, e meu medo-paixão é solidão. Comparada com solidão, a morte não tem quase nenhum apelo para mim. Não falo palavrões, nunca, nem uso expressões religiosas (tema de um dos textos do livro). Nunca amei e não sei o que é isso (outro tema). Ela quis aprender a ser pessimista e eu sou desde nascença. Até a dedicatória me exclui: o livro é dedicado a todos que já se arrependeram de ter ficado em silêncio. Jamais. Já me arrependi de muita coisa dita, mas de ter me calado, nunca. Adoro ficar quieta. Falar muito cansa. 

Enfim, um livro que tinha tudo para ser apenas mais um que li e guardei, pensando “poxa, ela escreve bem”. Não foi. É um livro que prova que, com as palavras certas, pode-se levar quem lê a qualquer lugar. Lendo, consegui ter um vislumbre de como é ter um luto tão longo (os meus, curtíssimos). Espiei dentro de uma outra alma: e quantas vezes não fiz isso antes, sempre quando o livro era bom? 

Meu medo de solidão só aumenta conforme fico mais velha e mais sábia (?) e tenho cada vez mais certeza, mais provas, de que é impossível não estar sozinha. Nunca, jamais, uma pessoa é capaz de realmente conhecer outra. Estar junto com alguém é sempre uma sensação, uma ilusão, não um estado real. A mais próxima das relações ainda é composta de duas pessoas que, no fundo, não se conhecem. A relação mais próxima que tenho é, obviamente, comigo, e sou um mistério para mim mesma. E se sentir sozinha desse jeito, sabendo que vai ser sempre assim, é doloroso. É por isso que gosto tanto de literatura, e de boa literatura como essa: essa dor diminui um pouquinho quando alguém, com palavras, me coloca uns centímetros mais perto. Vou ser sempre (e morrer, Amanda) sozinha, mas livros me ajudam a ver que não estou tão longe dos outros seres humanos quanto parece na maior parte do tempo. Diz se isso não é mágica?

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