O entusiasta

O moço era alto e forte e exalava saúde pelos poros. Ou talvez eu estivesse sensível a aparências saudáveis depois de dezenas de exames médicos em sequência que fazem eu me sentir um corpo feio e doente mesmo que sem muitos sintomas. “E aí, vamos fazer uma ressonância da cabeça?!?!?!”, gritou o fortão saudável de uniforme azul com um tom de voz adequado para chamar alguém para ir tomar uma cerveja no bar da esquina.

Concordei em silêncio, em vez de uma cerveja ele me deu um conjunto também azul para vestir e depois de me colocar sentada, enfiou animado uma agulha no meu braço. Disse alguma coisa estranha sobre a agulha “voltar para a casinha dela” enquanto eu encarava um tubo de plástico colado na minha pele. Me deu informações sobre o exame sem interromper os movimentos rápidos e enérgicos, estes mais adequados a um palco de break dance do que a uma clínica de exames. 

Me deu caneta e uma prancheta e me deixou sozinha. Preenchi duas folhas de questionário incomodada com ter um tubo conectando minha veia com o mundo exterior, e logo o entusiasta do exame voltou me buscar. Evitei olhar para o rosto dele enquanto ele enfiava protetores nos meus ouvidos, aquele sorriso saudável estava me dando uma quase incontrolável vontade de dizer algo sobre o derretimento das calotas polares, a morte de animais em queimadas ou o colapso do capitalismo, e dar um soco naquele nariz bronzeado. 

Não soquei ninguém e deitei obediente, deixei que ele prendesse minha cabeça e me enfiasse num tubo da marca Philips, e aguentei vinte e cinco minutos de barulho de obra soando dentro do meu cérebro. Não vi mais o entusiasta, quem me levou para a saída foi uma moça baixinha surgida sabe-se lá de onde e que só me perguntou se eu estava com tontura. Eu não sabia se o que estava sentindo era tontura então respondi que não. 

Talvez o entusiasta tenha ainda menos motivos do que eu para ser tão alegre, e reage falando de exames como se falasse de um rolê de sexta (hoje é sexta). Talvez ele tome remédios ou use outras drogas. Talvez ele não leia notícias. Ou pode ser que ele simplesmente escolhe ser alegre e achar as coisas legais, e se for isso estou morta de inveja. Pensando no entusiasta, tentei achar incrível a cor da geleia de morango que recobria a fatia de torta que foi minha autorrecompensa pelo exame. Era bonita, mas excessivamente parecida com o sangue que manchava o algodão grudado no meu braço. 

Escrevendo isso horas mais tarde, percebo que talvez o problema esteja nessa comparação. Beber uma cerveja no bar da esquina existe independentemente dos exames invasivos. Geleia de morango tem gosto bom mesmo quando o braço dói, perfurado. Depois do barulho de obra ainda posso ouvir Bowie. Enquanto a morte não chega, tem um monte de coisa para viver. Será com isso que ele se entusiasma?

Leave a comment