Estou, ainda, incapaz de sentir toda a transformação que me prometeram com essa cirurgia. Limpar a minha hipófise de um tumor me livrou da Doença de Cushing, e do avanço dos vários problemas de saúde a ela associados. Fica a osteoporose grave, que tratarei com injeções formadoras de ossos, e o princípio de obesidade, que minha disciplina será agora capaz de reverter. A pele seguirá sensível por um tempo, formando hematomas loucamente, mas também eventualmente terá uma elasticidade normal para a minha idade. Eu preciso, porém, me lembrar dessas coisas constantemente, porque por enquanto a única coisa que consigo sentir completamente é a abrupta falta de cortisol.
Comandadas por uma hipófise doente, minhas glândulas adrenais acostumaram-se a produzir uma quantidade de cortisol suficiente para manter ativos uns dez lutadores de boxe saudáveis. Sou uma só e nunca lutei boxe, de forma que todo esse cortisol ficava no meu corpo e precisava ser processado de alguma forma. A forma foi a doença. Agora, subitamente livres do falso excesso de demanda, as pobres adrenais entraram em recesso. Tomo 5mg de corticoide todos os dias, para ajudá-las, mas o nível segue abaixo do necessário para manter ativa uma mulher desempregada e em repouso pós-cirúrgico.
Sei que isso é esperado e temporário, e que preciso de paciência para esperar meu corpo se acostumar ao novo normal. Mas, mesmo assim, estou tendo uma certa dificuldade em me conformar com a limitação dessa recuperação. A falta de cortisol me causa um cansaço que extrapola o significado dessa palavra. Seria necessário um termo para designar uma mistura, em doses iguais, de cansaço mental, cansaço físico, depressão profunda, sono, indisposição da TPM e fraqueza muscular.
Sinto que trabalhei por 8h seguidas sem intervalo enquanto corria uma maratona. A vida parece ter menos sentido do que nunca e eu bocejo o dia inteiro, com vontade de deitar em posição fetal e quem sabe chorar um pouquinho. Preciso levantar a garrafa de café com as duas mãos, porque um braço só não dá conta. Permaneço praticamente indisponível para meus pais, minha irmã, meu cunhado e namorado, porque só metade da Isabela que eles amam está funcionando. Talvez nem isso.
Ando pela casa numa lentidão de lesma, tentando imaginar que sou uma sereia nadando vagarosamente contra a corrente marítima e me sentir menos doente. Espanto-me quando vejo que as horas passam na mesma velocidade de sempre, porque estou com a sensação de que o mundo está mais devagar desde que saí do hospital. Ontem finalmente choveu e eu podia jurar que as gotas caíam em velocidade diferente de antes.
Descansar agora tem novo espaço na rotina, já que ocupa mais tempo do que as atividades. Escrevo um parágrafo e descanso. Almoço e descanso. Dou bom dia aos cachorros e descanso. Tomo banho e descanso. E continuo cansada. Ou melhor, descortisolada, já que não temos termo apropriado. Li a definição de “astenia” e achei que se aproxima, mas ainda não é perfeita.
Está chegando o ano novo e eu, que gosto de dias 01 que caem em segunda-feira e me incomodo quando o condicionador acaba antes do shampoo, estou torcendo para dar certo a profecia dos médicos bem na virada do ano. Disseram eles que eu seria uma nova pessoa, que minha vida iria mudar, e aceito feliz este horrível período de recesso das adrenais se ele tiver fim a tempo de a minha nova vida coincidir com o novo ano.
Afinal, tento, há anos, começar o novo ano de forma mais leve, fazendo promessas de simplificar e descomplicar e despreocupar. O tumor devia pesar menos de uma grama, mas a retirada dele me livrou de vários quilos de problemas. Quem sabe este ano eu finalmente tenho sucesso?
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