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Filosofia
O som do despertador do celular tocando a puxou devagar de dentro do poço de um sono sem sonhos, silencioso, sem cor e sem peso. A primeira coisa que viu foi o telefone de plástico amarelado, parcialmente cobrindo o menu do serviço de quarto. Estou em um hotel, lembrou. É estranha a sensação de lembrar…
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Pequeno manifesto
Resenha de Little Women Não vejo muito sentido em eu resenhar Little Women (quando escrevo títulos em inglês, é porque li o original e não a tradução), escrito há séculos atrás e já resenhado e resumido e filmado. Não tenho a pretensão de acrescentar nenhuma análise nova dessa obra que, acho melhor começar confessando, achei…
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Dublinense – vinte
Não sei qual dos apps de relacionamento é mais comum na Irlanda, não poderia fazer um chute muito seguro de em qual deles aqueles dois tinham se conhecido. A posição da mesa deles era ideal para serem observados discretamente da minha. Não que eles fossem perceber que estavam sendo observados de qualquer forma, tenho certeza…
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Dublinense – dezenove
A primavera aqui chegou sem fazer barulho, como que tentando não se fazer notar, uma visita que manda as bagagens na frente aos poucos e um dia chega, bem silenciosamente, e se instala num quarto. Dias depois, passa a andar pela casa. Os brotinhos de folhas e uns botões de flores começaram a aparecer há…
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Não sei, nem quero
Resenha de We have always lived in the castle Li uma edição de We have always lived in the castle, de Shirley Jackson, que tem um posfácio de Joyce Carol Oates. Tenho o hábito de sempre ler qualquer material extra de livros (prefácios, introduções, notas) depois de ler a história em si, mesmo que estejam…
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(Dor)avante denominada eu
Um corpo é um aglomerado de células. Meu corpo é um aglomerado de células. Penso nisso enquanto ando e sinto a dor que agora já considero parte minha, depois de meses sentindo dor ao caminhar. Depois, uma ferida no outro calcanhar, uma bolha avermelhada na perna em que derramei chá quente, o útero em silêncio…
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Atrás da dignidade
Resenha de The remains of the day Eu esperava o mesmo cheiro de estante de biblioteca, cheiro de poeira sobre papel envelhecido, mas o livro cheirava a farmácia. Um aroma de gaze antisséptica que saía de páginas branco-creme, macias e sem orelhas. A capa de tecido vermelho, lisa e sem o título, contribuía para o…
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Uma resenha?
Houve uma época em que eu resenhava todos, ou quase todos, os livros que lia. Resenhar livros é um exercício prazeroso, e teci muitos comentários sobre autores diversos em textos que gosto de pensar como resenhas não convencionais, filhas do casamento de crítica literária com crônica. Vai ver não eram nada disso; apenas minha opinião…
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Dublinense – dezoito
Um culto satânico, terapia cromática, uma lareira falsa, uma chocadeira ou só um abajur cafona? É a terceira sacada contando da esquerda para a direita no prédio que impede que a visão da minha janela seja mais interessante. Para alguém com tendências voyeuristas, é interessante o suficiente. Tem a família no andar térreo cujo pai…
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Dublinense – dezessete
Um cara me parou a caminho do parque perguntando se podia me fazer uma pergunta, apenas uma pergunta. Não, eu não queria uma pergunta aqui, agora, nessa rua lotada de gente num domingo de tarde, porque ele me escolheu? Casaco preto fechado indo das minhas canelas até o queixo, óculos escuros em pleno dia nublado,…