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  • Dublinense – dezesseis

    Esse sentimento novo que eu não consegui dar nome ainda, que não é só saudade nem medo nem confusão nem deslocamento nem estranheza nem incômodo nem falta de ar, mas é uma mistura de tudo isso. Hoje uma situação reproduziu isso tão bem que quase achei que ia conseguir dar nome. Descrever o que houve…

    Dublinense
  • Ah, ela vai ficar encantada

    Com cuidado, com muito cuidado, porque ela não gosta de um monte de retalhos pequenos. Quero levar largos pedaços desse musgo tão macio e verdinho, se eu conseguir tirar um grande o suficiente para forrar todo o fundo do ninho ela vai ficar tão contente. Quando penso no brilho dos olhinhos pretos dela sinto uma…

    Contos
  • Dublinense – quinze

    Eu não tenho medo de morrer. Nunca tive. Não acredito em inferno, purgatório ou qualquer coisa ruim que suceda a morte, logo não há de que ter medo. Na verdade, não acredito nem em alguma coisa boa que suceda a morte, isso talvez fosse motivo para medo. Do infinito tenho medo, do vazio, da continuação…

    Dublinense
  • Dublinense – catorze

    São oito horas da noite e já fazem quase quatro horas que escureceu. Depois do estranhamento dos dias excessivamente longos que me obrigavam a fechar as cortinas no horário que considero decente para o sol se pôr, agora enfrento um intervalo de horas iluminadas (não necessariamente com sol, na verdade quase nunca com sol) que…

    Dublinense
  • Ato de desespero

    Ela viu a amiga sentada no banco de costume, um sanduíche comido pela metade em uma mão e o celular na outra, descendo o dedo pela tela. Maria guardou o aparelho no bolso quando a viu chegando, e mordeu o sanduíche mais uma vez. Ela sentou-se no banco também e esperou que a outra terminasse…

    Contos
  • Dublinense – treze

    Eu sempre gostei de Ano Novo porque gosto de organizar as coisas, e começar de novo é um dos melhores jeitos de organizar. Novas listas de coisas a fazer, uma nova rotina autoimposta que supostamente torna meus dias mais fáceis de serem vividos, novo jeito de guardar minhas roupas no armário. Pela primeira vez, não…

    Dublinense
  • Dublinense – doze

    Para minha mãe – feliz natal. Uma das minhas atividades favoritas aqui é ouvir pedaços de conversas de outros brasileiros nas ruas, já deve ter ficado claro que o fenômeno “brasileiros na Irlanda” me interessa, dada a frequência com que menciono isso. Eu sempre amei a minha língua, a única aluna da escola que honestamente…

    Dublinense
  • Dublinense – onze

    “Live crib”, dizia a placa, com uma seta apontando o caminho lateral do parque. Meu dicionário mental não forneceu de imediato o significado de “crib”, mas sendo época de natal num lugar em que tudo vira decoração de natal, e vendo as cores da placa, imaginei que ela indicava o caminho do presépio do parque.…

    Dublinense
  • Dublinense – dez

    Às vezes estou apenas vivendo o dia e tudo isso parece um absurdo. O que vejo lá fora através da janela é um absurdo, o sinal de pedestre que vejo do outro lado da rua é um absurdo, o pacote de pão que acabei de comprar no mercado contém pães absurdos. Tudo parece pertencer a…

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  • Dublinense – nove

    Não sei se é isso que chamam de memória fotográfica, e seria bem estranho se fosse, porque minha memória é conhecida por ser ruim e memória fotográfica tem fama de boa. Além disso, não é apenas a imagem que registro nesses frames de memória que acabei nomeando de fotográficos, simplesmente porque não esqueço deles mesmo…

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