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Dublinense – oito
Eu me agarro em recomendações de livros com a mesma intensidade com que as pessoas se lançam na busca pela alma gêmea ou simplesmente algumas horas de afeto exclusivo. Não posso ouvir alguém falar de um livro com um mínimo de entusiasmo que não resisto a tentar manter a pessoa falando, quero saber o que…
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Dublinense – sete
Cinco horas. O guarda do parque passou balançando um sininho que um dia deve ter sido dourado, tlim dlim tlim dlim. “The park is closing, please go to the main gates”. Yes sure thank you. Ela saiu, virou a esquina e esperou no ponto de sempre, encostada na parede. Dez minutos, era o tempo que…
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Dublinense – seis
Quando estava no ensino médio, tinha sonhos extremamente violentos com frequência. Dormindo, assassinei todos os meus colegas de classe diversas vezes, utilizando vários métodos. Lembro-me de um em que usei a perna de ferro de uma carteira escolar para atravessar todos os adolescentes e transformei a sala em uma piscina de sangue. Na faculdade, e…
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Dublinense – cinco
Uma gaivota trombou com toda a força na porta de vidro do mercado, e caiu no chão, e seu pequeno corpo branco e macio ondulou em espasmos de morte durante os segundos que consegui assistir antes de entrar correndo e procurar leite de aveia e manteiga de amendoim como se fossem os produtos que iriam…
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Dublinense – quatro
Mais de dois meses se passaram desde que cheguei nestas terras estranhas e prometi escrever sobre o que não estava acontecendo. Preconceito com diários públicos e falta de um mínimo de egocentrismo para narrar minha vida pessoal como se ela importasse. A tarefa parecia simples no começo, enxergar um pouco a mais do que a…
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Dublinense – três
Ainda não vi ninguém falar sobre a mudança provocada pela chegada dos fones de ouvido sem fio. Não headphones, mas os pequenos, de encaixar no ouvido. Eu não tenho um desses, mas o fato de que existem e muita gente tem me permite andar pela rua falando sozinha sem parecer doida. Meu cabelo cobre minhas…
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Dublinense – Dois
Faz tempo que sou acompanhada pela Voz. Acho que todo mundo tem uma, o que deve variar é o momento da infância em que ela surge. Não me lembro exatamente quando a minha surgiu, mas me lembro de quando ela passou a falar predominantemente em inglês, quando fiz onze anos. Comecei a ir à escola…
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Dublinense – Um
É verão na Europa, estava calor. Quase nove horas da noite e ainda claro, estranhei o dia tão longo. Meu corpo já abatido pelo jet lag demoraria dias para se acostumar a isso. Mas, sem dúvida, o gorro de lã rosa na cabeça daquela senhorinha era mais estranho do que o sol das nove da…
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Dublinense – Piloto
Eu vim para Dublin para fazer mestrado. Sendo alguém que há muito tempo se equilibra (mal) em cima de pilhas de palavras, e tendo começado o texto com a frase anterior, eu poderia escrever sobre como machuquei o pé dias antes de embarcar na maior jornada da minha vida, ou sobre como tive muitas dificuldades…
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Em trânsito
Há muito tempo não escrevo. Não com a intenção de compor um texto “lível” (legível é outra coisa), rabiscos no meu caderno cumprem a função de dar uma limpada na minha mente barulhenta e apenas isso. Nem eu mesma vou ler aquilo depois. Mas me encontro desfrutando do meu meio dia de folga de aniversário…