-
Dublinense – catorze
São oito horas da noite e já fazem quase quatro horas que escureceu. Depois do estranhamento dos dias excessivamente longos que me obrigavam a fechar as cortinas no horário que considero decente para o sol se pôr, agora enfrento um intervalo de horas iluminadas (não necessariamente com sol, na verdade quase nunca com sol) que…
-
Dublinense – treze
Eu sempre gostei de Ano Novo porque gosto de organizar as coisas, e começar de novo é um dos melhores jeitos de organizar. Novas listas de coisas a fazer, uma nova rotina autoimposta que supostamente torna meus dias mais fáceis de serem vividos, novo jeito de guardar minhas roupas no armário. Pela primeira vez, não…
-
Dublinense – doze
Para minha mãe – feliz natal. Uma das minhas atividades favoritas aqui é ouvir pedaços de conversas de outros brasileiros nas ruas, já deve ter ficado claro que o fenômeno “brasileiros na Irlanda” me interessa, dada a frequência com que menciono isso. Eu sempre amei a minha língua, a única aluna da escola que honestamente…
-
Dublinense – onze
“Live crib”, dizia a placa, com uma seta apontando o caminho lateral do parque. Meu dicionário mental não forneceu de imediato o significado de “crib”, mas sendo época de natal num lugar em que tudo vira decoração de natal, e vendo as cores da placa, imaginei que ela indicava o caminho do presépio do parque.…
-
Dublinense – dez
Às vezes estou apenas vivendo o dia e tudo isso parece um absurdo. O que vejo lá fora através da janela é um absurdo, o sinal de pedestre que vejo do outro lado da rua é um absurdo, o pacote de pão que acabei de comprar no mercado contém pães absurdos. Tudo parece pertencer a…
-
Dublinense – nove
Não sei se é isso que chamam de memória fotográfica, e seria bem estranho se fosse, porque minha memória é conhecida por ser ruim e memória fotográfica tem fama de boa. Além disso, não é apenas a imagem que registro nesses frames de memória que acabei nomeando de fotográficos, simplesmente porque não esqueço deles mesmo…
-
Dublinense – oito
Eu me agarro em recomendações de livros com a mesma intensidade com que as pessoas se lançam na busca pela alma gêmea ou simplesmente algumas horas de afeto exclusivo. Não posso ouvir alguém falar de um livro com um mínimo de entusiasmo que não resisto a tentar manter a pessoa falando, quero saber o que…
-
Dublinense – seis
Quando estava no ensino médio, tinha sonhos extremamente violentos com frequência. Dormindo, assassinei todos os meus colegas de classe diversas vezes, utilizando vários métodos. Lembro-me de um em que usei a perna de ferro de uma carteira escolar para atravessar todos os adolescentes e transformei a sala em uma piscina de sangue. Na faculdade, e…
-
Dublinense – três
Ainda não vi ninguém falar sobre a mudança provocada pela chegada dos fones de ouvido sem fio. Não headphones, mas os pequenos, de encaixar no ouvido. Eu não tenho um desses, mas o fato de que existem e muita gente tem me permite andar pela rua falando sozinha sem parecer doida. Meu cabelo cobre minhas…
-
Dublinense – Dois
Faz tempo que sou acompanhada pela Voz. Acho que todo mundo tem uma, o que deve variar é o momento da infância em que ela surge. Não me lembro exatamente quando a minha surgiu, mas me lembro de quando ela passou a falar predominantemente em inglês, quando fiz onze anos. Comecei a ir à escola…