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Entendendo-me paciente
Estou, ainda, incapaz de sentir toda a transformação que me prometeram com essa cirurgia. Limpar a minha hipófise de um tumor me livrou da Doença de Cushing, e do avanço dos vários problemas de saúde a ela associados. Fica a osteoporose grave, que tratarei com injeções formadoras de ossos, e o princípio de obesidade, que…
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Você tem um minuto para ouvir a palavra?
É a palavra mais autêntica. Estou sendo literal. Literatura é espírito A literatura é imaterial. É tudo e é todos, está no raio de sol que entra pela fresta da janela fechada, no sangue que sai de um corte na pele e no brilho dos olhos da pessoa que amo. Sobrevive à morte. Comungo completamente…
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Um fim, um medo
Teimosa que sou, insisti até a metade do décimo conto, de doze, antes de admitir completamente que não estava gostando e abandonar o livro. Um livro do Stephen King, autor que descobri aos 18 anos e que foi por muitos anos minha salvação para a (ridícula) pergunta “quais autores você gosta de ler?”. Minha nossa,…
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Uma mulher sozinha ocupa um espaço enorme
Acordei de repente, como se caindo de dentro do sono na cama. Isso sempre acontece quando durmo em uma cama que não é a minha. Virei a cabeça para o lado e me deparei com a imensidão branca que era o espaço que eu não estava ocupando. Quase não me mexo dormindo, camas gigantes de…
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Não vou abrir a cabeça de ninguém com um machado
A pequena, porém excelente, rede de apoio que me sustenta inclui meu querido cunhado João Pedro, cuja reação à notícia da minha demissão foi me enviar duas recomendações de filmes de horror envolvendo empresas. Impossibilitada de adiantar meu retorno no psiquiatra (agenda cheia, tá todo mundo mal), encerrei este terceiro dia pós-choque assistindo a um…
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Esqueça isso de lembrar
Sou filha de psicanalista e cresci ouvindo que memória se constrói. Lembro-me de quando aprendi, deslumbrada, o que era um déjà-vu (“já visto”, em francês): uma memória inventada muito bem disfarçada de real. Vi minha mãe guardando em cima do armário um pote de vidro com granola, e, embora eu soubesse que o movimento já…
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(Dor)avante denominada eu
Um corpo é um aglomerado de células. Meu corpo é um aglomerado de células. Penso nisso enquanto ando e sinto a dor que agora já considero parte minha, depois de meses sentindo dor ao caminhar. Depois, uma ferida no outro calcanhar, uma bolha avermelhada na perna em que derramei chá quente, o útero em silêncio…
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Dublinense – catorze
São oito horas da noite e já fazem quase quatro horas que escureceu. Depois do estranhamento dos dias excessivamente longos que me obrigavam a fechar as cortinas no horário que considero decente para o sol se pôr, agora enfrento um intervalo de horas iluminadas (não necessariamente com sol, na verdade quase nunca com sol) que…
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Dublinense – doze
Para minha mãe – feliz natal. Uma das minhas atividades favoritas aqui é ouvir pedaços de conversas de outros brasileiros nas ruas, já deve ter ficado claro que o fenômeno “brasileiros na Irlanda” me interessa, dada a frequência com que menciono isso. Eu sempre amei a minha língua, a única aluna da escola que honestamente…
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Dublinense – dez
Às vezes estou apenas vivendo o dia e tudo isso parece um absurdo. O que vejo lá fora através da janela é um absurdo, o sinal de pedestre que vejo do outro lado da rua é um absurdo, o pacote de pão que acabei de comprar no mercado contém pães absurdos. Tudo parece pertencer a…