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Tudo o que eu não vou fazer
As coisas que não acontecem são as mais sedutoras. As coisas que eu não disse e que não ouvi. Os lugares em que não estive. As pessoas que não conheci, as sensações que não tive, tudo o que não toquei, a dor que não senti, as comidas que não provei, as coisas que não sei,…
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Dublinense – The End
Achei curioso constatar que estive em Dublin por exatos 320 dias. Não foram 319 ou 321, mas um número redondo terminado em zero. Um resultado exato e par para o que foram dias muito inexatos e ímpares. A Dublin em que morei durante estes 320 dias não deixou de surpreender e espantar e deslocar do…
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A necessidade da tradução
Resenha de Babel: Or the Necessity of Violence: An Arcane History of the Oxford Translators’ Revolution Depois de ter ouvido de duas pessoas que eu ia gostar de Babel, de R.F. Kuang, achei que as chances de eu realmente gostar eram altas. Não é muito comum me recomendarem livros, não sei por que. Geralmente chego…
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Dublinense – dezoito
Um culto satânico, terapia cromática, uma lareira falsa, uma chocadeira ou só um abajur cafona? É a terceira sacada contando da esquerda para a direita no prédio que impede que a visão da minha janela seja mais interessante. Para alguém com tendências voyeuristas, é interessante o suficiente. Tem a família no andar térreo cujo pai…
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Dublinense – dezesseis
Esse sentimento novo que eu não consegui dar nome ainda, que não é só saudade nem medo nem confusão nem deslocamento nem estranheza nem incômodo nem falta de ar, mas é uma mistura de tudo isso. Hoje uma situação reproduziu isso tão bem que quase achei que ia conseguir dar nome. Descrever o que houve…
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Ato de desespero
Ela viu a amiga sentada no banco de costume, um sanduíche comido pela metade em uma mão e o celular na outra, descendo o dedo pela tela. Maria guardou o aparelho no bolso quando a viu chegando, e mordeu o sanduíche mais uma vez. Ela sentou-se no banco também e esperou que a outra terminasse…
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Dublinense – onze
“Live crib”, dizia a placa, com uma seta apontando o caminho lateral do parque. Meu dicionário mental não forneceu de imediato o significado de “crib”, mas sendo época de natal num lugar em que tudo vira decoração de natal, e vendo as cores da placa, imaginei que ela indicava o caminho do presépio do parque.…
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Dublinense – oito
Eu me agarro em recomendações de livros com a mesma intensidade com que as pessoas se lançam na busca pela alma gêmea ou simplesmente algumas horas de afeto exclusivo. Não posso ouvir alguém falar de um livro com um mínimo de entusiasmo que não resisto a tentar manter a pessoa falando, quero saber o que…
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Dublinense – sete
Cinco horas. O guarda do parque passou balançando um sininho que um dia deve ter sido dourado, tlim dlim tlim dlim. “The park is closing, please go to the main gates”. Yes sure thank you. Ela saiu, virou a esquina e esperou no ponto de sempre, encostada na parede. Dez minutos, era o tempo que…
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Dublinense – Um
É verão na Europa, estava calor. Quase nove horas da noite e ainda claro, estranhei o dia tão longo. Meu corpo já abatido pelo jet lag demoraria dias para se acostumar a isso. Mas, sem dúvida, o gorro de lã rosa na cabeça daquela senhorinha era mais estranho do que o sol das nove da…