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Um horror à parte
Justo na primeira vez em que ela emprestava um livro nessa biblioteca, a reputação de leitora estragada por um atraso de dois dias. Um atraso besta ainda, poderia perfeitamente ter devolvido na data não fosse a distração que a fez marcar a quarta feira seguinte na agenda em vez da data correta. Amassando as notas…
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Dublinense – The End
Achei curioso constatar que estive em Dublin por exatos 320 dias. Não foram 319 ou 321, mas um número redondo terminado em zero. Um resultado exato e par para o que foram dias muito inexatos e ímpares. A Dublin em que morei durante estes 320 dias não deixou de surpreender e espantar e deslocar do…
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Com alma, no fundo dela
Resenha de Friday Black Já escrevi alguma vez antes sobre o tanto de talento que é exigido de contistas, em comparação a romancistas. Não quis dizer que um é mais difícil que o outro, mas que são dificuldades diferentes com as quais as pessoas lidam de formas diferentes. Eu gosto muito do desafio que é…
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A necessidade da tradução
Resenha de Babel: Or the Necessity of Violence: An Arcane History of the Oxford Translators’ Revolution Depois de ter ouvido de duas pessoas que eu ia gostar de Babel, de R.F. Kuang, achei que as chances de eu realmente gostar eram altas. Não é muito comum me recomendarem livros, não sei por que. Geralmente chego…
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Filosofia
O som do despertador do celular tocando a puxou devagar de dentro do poço de um sono sem sonhos, silencioso, sem cor e sem peso. A primeira coisa que viu foi o telefone de plástico amarelado, parcialmente cobrindo o menu do serviço de quarto. Estou em um hotel, lembrou. É estranha a sensação de lembrar…
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Pequeno manifesto
Resenha de Little Women Não vejo muito sentido em eu resenhar Little Women (quando escrevo títulos em inglês, é porque li o original e não a tradução), escrito há séculos atrás e já resenhado e resumido e filmado. Não tenho a pretensão de acrescentar nenhuma análise nova dessa obra que, acho melhor começar confessando, achei…
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Dublinense – vinte
Não sei qual dos apps de relacionamento é mais comum na Irlanda, não poderia fazer um chute muito seguro de em qual deles aqueles dois tinham se conhecido. A posição da mesa deles era ideal para serem observados discretamente da minha. Não que eles fossem perceber que estavam sendo observados de qualquer forma, tenho certeza…
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Dublinense – dezenove
A primavera aqui chegou sem fazer barulho, como que tentando não se fazer notar, uma visita que manda as bagagens na frente aos poucos e um dia chega, bem silenciosamente, e se instala num quarto. Dias depois, passa a andar pela casa. Os brotinhos de folhas e uns botões de flores começaram a aparecer há…
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Não sei, nem quero
Resenha de We have always lived in the castle Li uma edição de We have always lived in the castle, de Shirley Jackson, que tem um posfácio de Joyce Carol Oates. Tenho o hábito de sempre ler qualquer material extra de livros (prefácios, introduções, notas) depois de ler a história em si, mesmo que estejam…
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(Dor)avante denominada eu
Um corpo é um aglomerado de células. Meu corpo é um aglomerado de células. Penso nisso enquanto ando e sinto a dor que agora já considero parte minha, depois de meses sentindo dor ao caminhar. Depois, uma ferida no outro calcanhar, uma bolha avermelhada na perna em que derramei chá quente, o útero em silêncio…