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Atrás da dignidade
Resenha de The remains of the day Eu esperava o mesmo cheiro de estante de biblioteca, cheiro de poeira sobre papel envelhecido, mas o livro cheirava a farmácia. Um aroma de gaze antisséptica que saía de páginas branco-creme, macias e sem orelhas. A capa de tecido vermelho, lisa e sem o título, contribuía para o…
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Uma resenha?
Houve uma época em que eu resenhava todos, ou quase todos, os livros que lia. Resenhar livros é um exercício prazeroso, e teci muitos comentários sobre autores diversos em textos que gosto de pensar como resenhas não convencionais, filhas do casamento de crítica literária com crônica. Vai ver não eram nada disso; apenas minha opinião…
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Dublinense – dezoito
Um culto satânico, terapia cromática, uma lareira falsa, uma chocadeira ou só um abajur cafona? É a terceira sacada contando da esquerda para a direita no prédio que impede que a visão da minha janela seja mais interessante. Para alguém com tendências voyeuristas, é interessante o suficiente. Tem a família no andar térreo cujo pai…
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Dublinense – dezessete
Um cara me parou a caminho do parque perguntando se podia me fazer uma pergunta, apenas uma pergunta. Não, eu não queria uma pergunta aqui, agora, nessa rua lotada de gente num domingo de tarde, porque ele me escolheu? Casaco preto fechado indo das minhas canelas até o queixo, óculos escuros em pleno dia nublado,…
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Dublinense – dezesseis
Esse sentimento novo que eu não consegui dar nome ainda, que não é só saudade nem medo nem confusão nem deslocamento nem estranheza nem incômodo nem falta de ar, mas é uma mistura de tudo isso. Hoje uma situação reproduziu isso tão bem que quase achei que ia conseguir dar nome. Descrever o que houve…
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Ah, ela vai ficar encantada
Com cuidado, com muito cuidado, porque ela não gosta de um monte de retalhos pequenos. Quero levar largos pedaços desse musgo tão macio e verdinho, se eu conseguir tirar um grande o suficiente para forrar todo o fundo do ninho ela vai ficar tão contente. Quando penso no brilho dos olhinhos pretos dela sinto uma…
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Dublinense – quinze
Eu não tenho medo de morrer. Nunca tive. Não acredito em inferno, purgatório ou qualquer coisa ruim que suceda a morte, logo não há de que ter medo. Na verdade, não acredito nem em alguma coisa boa que suceda a morte, isso talvez fosse motivo para medo. Do infinito tenho medo, do vazio, da continuação…
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Dublinense – catorze
São oito horas da noite e já fazem quase quatro horas que escureceu. Depois do estranhamento dos dias excessivamente longos que me obrigavam a fechar as cortinas no horário que considero decente para o sol se pôr, agora enfrento um intervalo de horas iluminadas (não necessariamente com sol, na verdade quase nunca com sol) que…
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Ato de desespero
Ela viu a amiga sentada no banco de costume, um sanduíche comido pela metade em uma mão e o celular na outra, descendo o dedo pela tela. Maria guardou o aparelho no bolso quando a viu chegando, e mordeu o sanduíche mais uma vez. Ela sentou-se no banco também e esperou que a outra terminasse…
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Dublinense – treze
Eu sempre gostei de Ano Novo porque gosto de organizar as coisas, e começar de novo é um dos melhores jeitos de organizar. Novas listas de coisas a fazer, uma nova rotina autoimposta que supostamente torna meus dias mais fáceis de serem vividos, novo jeito de guardar minhas roupas no armário. Pela primeira vez, não…