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Dublinense – doze
Para minha mãe – feliz natal. Uma das minhas atividades favoritas aqui é ouvir pedaços de conversas de outros brasileiros nas ruas, já deve ter ficado claro que o fenômeno “brasileiros na Irlanda” me interessa, dada a frequência com que menciono isso. Eu sempre amei a minha língua, a única aluna da escola que honestamente…
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Dublinense – onze
“Live crib”, dizia a placa, com uma seta apontando o caminho lateral do parque. Meu dicionário mental não forneceu de imediato o significado de “crib”, mas sendo época de natal num lugar em que tudo vira decoração de natal, e vendo as cores da placa, imaginei que ela indicava o caminho do presépio do parque.…
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Dublinense – dez
Às vezes estou apenas vivendo o dia e tudo isso parece um absurdo. O que vejo lá fora através da janela é um absurdo, o sinal de pedestre que vejo do outro lado da rua é um absurdo, o pacote de pão que acabei de comprar no mercado contém pães absurdos. Tudo parece pertencer a…
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Dublinense – nove
Não sei se é isso que chamam de memória fotográfica, e seria bem estranho se fosse, porque minha memória é conhecida por ser ruim e memória fotográfica tem fama de boa. Além disso, não é apenas a imagem que registro nesses frames de memória que acabei nomeando de fotográficos, simplesmente porque não esqueço deles mesmo…
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Dublinense – oito
Eu me agarro em recomendações de livros com a mesma intensidade com que as pessoas se lançam na busca pela alma gêmea ou simplesmente algumas horas de afeto exclusivo. Não posso ouvir alguém falar de um livro com um mínimo de entusiasmo que não resisto a tentar manter a pessoa falando, quero saber o que…
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Dublinense – sete
Cinco horas. O guarda do parque passou balançando um sininho que um dia deve ter sido dourado, tlim dlim tlim dlim. “The park is closing, please go to the main gates”. Yes sure thank you. Ela saiu, virou a esquina e esperou no ponto de sempre, encostada na parede. Dez minutos, era o tempo que…
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Dublinense – seis
Quando estava no ensino médio, tinha sonhos extremamente violentos com frequência. Dormindo, assassinei todos os meus colegas de classe diversas vezes, utilizando vários métodos. Lembro-me de um em que usei a perna de ferro de uma carteira escolar para atravessar todos os adolescentes e transformei a sala em uma piscina de sangue. Na faculdade, e…
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Dublinense – cinco
Uma gaivota trombou com toda a força na porta de vidro do mercado, e caiu no chão, e seu pequeno corpo branco e macio ondulou em espasmos de morte durante os segundos que consegui assistir antes de entrar correndo e procurar leite de aveia e manteiga de amendoim como se fossem os produtos que iriam…
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Dublinense – quatro
Mais de dois meses se passaram desde que cheguei nestas terras estranhas e prometi escrever sobre o que não estava acontecendo. Preconceito com diários públicos e falta de um mínimo de egocentrismo para narrar minha vida pessoal como se ela importasse. A tarefa parecia simples no começo, enxergar um pouco a mais do que a…
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Dublinense – três
Ainda não vi ninguém falar sobre a mudança provocada pela chegada dos fones de ouvido sem fio. Não headphones, mas os pequenos, de encaixar no ouvido. Eu não tenho um desses, mas o fato de que existem e muita gente tem me permite andar pela rua falando sozinha sem parecer doida. Meu cabelo cobre minhas…