Parecia que ela tinha ido embora

Claro que todo mundo desconfiava de ela sentar sempre na primeira fileira de bancos e fazer confissões tão demoradas. Nas fofocas entre as mulheres falavam dela muitas vezes, sempre com um risinho maldoso mas também um pouco de pena, afinal, como não se compadecer de uma mulher apaixonada pelo padre? Se o padre em questão fosse um pouco menos virtuoso e Clarice, um pouco mais ousada, quem sabe a coisa não deixava de ser platônica e se tornava motivo de indignação e não de pena. Mas não era o caso. O padre Homero, celibatário convicto desde os tempos de seminário, chegava aos quarenta e dois anos podendo se orgulhar de ter heroicamente mantido a promessa religiosa, apesar das inúmeras tentações que a vida sempre oferece. E Clarice, na flor dos seus vinte anos, comportava-se e vestia-se como uma recatada senhora de cinquenta. Nada de saias curtas. Ou cores extravagantes ou maquiagens. Nem mesmo quando estava fora da igreja, o que aliás era raro. Clarice participava de todas as atividades culturais e de caridade oferecidas pela paróquia do padre Homero e assistia a todas as missas, sentada o mais próximo possível do altar e com os olhos impiscantes grudados no pároco.

A mãe de Clarice estava ciente da paixão problemática da filha e lamentava que uma moça tão bonita jamais fosse se casar, porque sabia que não haveria meios de convencê-la a desistir da ideia e se interessar por não celibatários da sua idade. Era difícil de demover Clarice de qualquer coisa que ela tomava como propósito, e a pobre senhora percebeu, depois de inúmeras operações-cupido fracassadas, que a filha era excessivamente determinada até na vida amorosa. Ademais, gostava muito dela, que era muito querida também pelo resto da família e pelas pessoas do bairro. Clarice era generosa com todos, apesar de tímida, e sempre estava disposta a cuidar das crianças das vizinhas quando preciso.

É fácil imaginar, então, como todos ficaram abalados quando ela morreu. O motorista do caminhão que provocou o acidente foi incansavelmente perturbado durante meses pelos moradores do bairro, que também se encarregaram de providenciar um lindo funeral para a moça, dividindo os gastos e poupando a mãe da morta de gastar um dinheiro que ela não tinha. Comovido com a morte tão trágica de uma alma tão boa e tão pura, o padre Homero obviamente não cobrou honorários para os serviços religiosos do enterro. Clarice ganhou um túmulo discreto em um cantinho do cemitério, onde as vizinhas plantaram canteiros de hortênsias. Segundo a mãe de Clarice, essas eram suas flores favoritas quando viva.

A passagem de Clarice para o outro mundo se deu em um sábado nublado. À noitinha, depois do enterro, o padre Homero rezou mais algumas vezes pela alma da garota. Ele sabia que ela tinha sido apaixonada por ele e era bastante agradecido por Clarice não ter sido mais incisiva, porque realmente não sabia como reagiria se tivesse uma beata voluptuosa e insinuante grudada na sua batina a semana inteira.  Depois que considerou a alma bem encomendada, o padre Homero acendeu o abajur do seu quarto ascético de homem religioso e se pôs a preparar o sermão do domingo. Ele gostava de escrever seus próprios sermões originais, que instruíssem seus fiéis nos quesitos morais mais necessários no momento (o padre Homero sempre estava atento ao que acontecia na sua paróquia) e que fossem compreensíveis por todos os que atendiam às suas pregações. O texto progredia lentamente, porque o funeral o tinha deixado bastante cansado, e às dez e meia o padre decidiu parar o trabalho e descansar. Fechou sua Bíblia pessoal, levantou da cama, pôs de lado os papéis e a caneta e já ia se preparando para as orações da noite quando ouviu a voz feminina.

-Terminou, padre?

Absolutamente surpreso, porque morava sozinho e Claudete, sua empregada, tinha ido embora há cinco horas atrás, o padre Homero se voltou para a direção da voz. Uma Clarice semitransparente estava sentada na ponta da sua cama e olhava para ele com o olhar inflamado das mulheres perdidamente apaixonadas.

A sua primeira reação foi, obviamente, de pavor. Mentem as pessoas que dizem não ter medo de fantasmas. Se vissem um de verdade, ficariam apavoradas. Tremendo da cabeça aos pés, o padre Homero procurou a cadeira atrás de si com as mãos tateantes, sem deixar de fixar a aparição com os olhos arregalados. Quando conseguiu se sentar, tentou falar alguma coisa, e o que saiu foi:

-O que…minha filha, você…mas isso é…

E depois disso emudeceu, sem parar de olhar o lindo fantasma de Clarice. A moça, vendo que o padre estava visivelmente nervoso e confuso, deu um largo sorriso e se pôs a tagarelar, algo totalmente improvável para a Clarice viva.

-Eu dei um jeitinho de voltar, padre, você não acha bom? Não gostei muito de ter perdido metade da minha opacidade, mas é melhor que nada. E me sinto bem mais leve assim também. O que acha, continuo bonita? (e puxou os cabelos com as mãos, num arroubo de coquetismo absolutamente incompatível com aquela que tinha sido a Clarice atropelada) Faz tempo que estou aqui vendo você trabalhar, sempre sonhei com esse momento. Adoro as marquinhas que aparecem na sua testa quando você está pensando. – disparou ela, dando um sorriso sedutor novinho em folha, porque a Clarice viva jamais tinha usado um daqueles.

Depois desse jorro de palavras, o padre Homero ficou consideravelmente mais tranquilo, porque o que assusta nos fantasmas é justamente o silêncio. E aquele ali era falante até demais.

-Você não pode ser a Clarice. A Clarice que morreu não era assim extrovertida e nem tão…tão..

-Atraente? Sensual?

-Eu não quis dizer isso.

-Ora, vamos, padre, eu sei que você é louquinho por mim.

A essa altura o pobre padre já tinha esquecido completamente o medo de fantasmas e suava de nervoso por causa daquela situação bizarra. Depois de décadas de celibato bem sucedido, aparece uma morta tentando levá-lo aos caminhos pecaminosos? Ele nunca pensou que passaria por algo tão absurdo. E o pior é que o fantasma de Clarice encarnava a  perfeita imagem da sedução, desenterrando todos os instintos masculinos que o confuso e desesperado padre Homero tinha sepultado quando ainda era um jovem seminarista com poucos pelos no rosto.

-A moça que eu enterrei hoje jamais usaria uma roupa dessas, nem entraria no quarto de ninguém sem permissão. Todo mundo que te conhecia sabia disso.

Clarice usava um vestido curtíssimo e sem alças.

-Ah, então é isso que você pensa?-ela ficou visivelmente irritada- Só porque passei anos bancando a santa não quer dizer que não posso ter um pouco de liberdade agora que me livrei do fardo de viver.

O padre Homero ainda suava copiosamente, grudado no encosto da sua cadeirinha. Aquela conversa não poderia terminar bem, ele pensava.

-Não há mais impedimentos para as nossas relações, padre, agora que…

-Relações? Que relações? Moça, você está louca, o que você está falando não faz sentido nenhum, por favor saia do meu quarto. Agora. Por favor, saia daqui.

-Padre, você não percebe? Seus votos de celibatário não incluíam mortas. Podemos ficar juntos sem abalar as suas convicções religiosas e sem fazer escândalo, porque, acredite, nesta nova forma eu fiquei bem mais discreta, posso até passar despercebida pelo pessoal todo. Ninguém precisa saber que o padre tem uma amante.

-Discreta é o último adjetivo que eu usaria para te descrever.

Ela sorriu de novo e descruzou as pernas, se esticando toda pela cama arrumadinha do padre.

-Ah, pode confiar em mim. Nem minha pobre velha mamãe vai me ver por aí, eu prometo. Eu fico quietinha aqui na sua casa enquanto você estiver trabalhando e posso até deixar…

-Quieta! Não quero ouvir mais uma palavra desse discurso ridículo, absurdo! Fora daqui, já!

O padre Homero finalmente tinha conseguido coragem para se levantar da cadeirinha e abriu a porta do quarto, apontando o corredor com o indicador trêmulo.

-Ah! Você ama outra! -disse ela, numa pretensa e péssima imitação dos filmes românticos.

-Não, sua imbecil. – padre Homero nesse momento perdeu toda a sua santa paciência com aquela menina translúcida- Eu sou um padre, e padres não amam, não devem, amamos a deus e pronto, a gente aprende isso desde bem novinho, e não vai ser o fantasma de uma menina desmiolada e volúvel que vai bagunçar o meu método moral e filosófico que mantive rigorosamente todos esses anos. Se você não sair daqui agora mesmo, e voltar para o cemitério, de onde não deveria ter saído, eu vou direto para a casa da sua mãe chamá-la para te ver, e duvido que ela ia ficar muito satisfeita com essa roupa que você está usando.

Clarice não ficou nada contente de ser chamada de menina desmiolada e volúvel. Ela tinha sido muito sensível quando viva, e aparentemente essa não era uma das características que mudaram com a sua passagem. Magoada com a má recepção que tinha tido pelo grande amor da sua vida (e da morte também), Clarice saiu correndo porta afora chorando um choro bastante barulhento, atravessou a parede do corredor e sumiu.

Padre Homero respirou aliviado. Passou, entretanto, aquela noite a as quatro próximas em claro, morrendo de medo que a mágoa da sua admiradora resolvesse arrefecer e ela aparecesse de novo. Mas como uma semana depois a sua vida solitária continuava tão imperturbada quanto antes da morte de Clarice, ele relaxou e deu o assunto por encerrado. Dedicou-se de cérebro, corpo e alma aos seus sermões e se empenhou em consolar a mãe da morta, que sofria muito no seu luto. Fazia visitinhas várias vezes por semana e um mês depois passou até a acompanhar a desolada senhora ao cemitério, já esquecido da sua má experiência com a ocupante da lápide em questão. E é por isso que o assunto nem passou pela sua cabeça quando Armandinho, o seu coroinha, veio lhe pedir conselhos em “um assunto muito sério”.

Armandinho era novo o suficiente para ainda ter várias espinhas no rosto, mas já passava da idade que geralmente tem os coroinhas. Ele tinha começado a ajudar na missa quando ainda era criança, mas como era muito pontual e ajuizado o padre se recusou a substiuí-lo por um garoto mais novo, mesmo depois que ele entrou para o seminário (o padre Homero conseguiu uma autorização especial do colégio para que ele pudesse sair do internato quando fosse ajudar na igreja, o que causava a ira invejosa de todos os outros internos). O moço tinha um respeito exagerado pelo padre, sempre o tratando por senhor e obedecendo a todas as sua ordens da maneira mais estrita o possível. O padre, então, não tinha motivos para ser duro com ele e o recebeu bondosamente em sua casa quando ele pediu aquela pequena audiência extraoficial.

-O que se passa, rapaz? Espere aí, não quer sentar?

O padre Homero ofereceu uma cadeira da sala.

-Hum, não, obrigado padre, eu estou bem assim.

Nervoso, Armandinho torcia o cordãozinho do crucifixo nas mãos e olhava o chão.

-Mas então, o que foi? Brigou com seus pais? Está doente?

-Não, senhor padre. É um assunto um pouco mais delicado.

-Bem, eu farei o que for possível para ajudar.

-Eu queria que o senhor falasse um pouco sobre o celibato clerical.

O padre Homero ficou totalmente desequilibrado com o pedido. Já começou a imaginar algum escândalo, alguma garota grávida por aí ou algo igualmente trabalhoso de lidar.

-Mas rapaz, já não te torturam com isso no colégio?

-Sim, mas eu tenho algumas dúvidas e não tenho coragem de perguntar para os professores do colégio. Confio mais no senhor.

Lisonjeado com aquela demonstração de exclusividade, o padre Homero assumiu um ar paternoprofessoral.

-Bom, o celibato clerical, como você certamente já sabe, impede que nós, religiosos, mantenhamos relações amorosas. Nosso compromisso é com Deus e a Igreja. Isso significa que você não poderá se casar e é preferível que mantenha uma distância respeitosa das mulheres. Mas já devem ter te explicado isso várias vezes. Porque não faz uma pergunta mais específica?

Por causa da cabeça baixa de constrangimento e nervoso, Armandinho tinha que levantar as pupilas ao máximo para olhar para o padre. Ele claramente não tinha muita certeza sobre qual seria a reação do mestre à sua pergunta.

-E o que dizem as regras sobre as relações de homens religiosos com….as fantasmas?

Isabela Torezan

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