Que horror

Resenha de As coisas que perdemos no fogo

Boa parte do sucesso de uma história de terror (em causar medo) se deve ao suspense, à expectativa de encontrar o desconhecido. Nada mais apropriado, então do que ficar esperando, ansiosa, um livro de terror chegar. Eu comprei As coisas que perdemos no fogo, da Mariana Enriquez, na promoção do Dia da Mulher. Acho que muita gente também aproveitou essa promoção e o serviço de entrega ficou sobrecarregado, porque o prazo já era longo, o livro não chegou e eles aumentaram o prazo ainda mais. Os livros da minha mãe e da minha irmã, comprados na mesma data, chegaram, e nada do minha décima quinta leitura do ano.

Quando ele chegou, eu estava lendo o já resenhado Black Dhalia e tive que esperar ainda mais um pouco. Eu tinha lido sobre a autora e sobre a obra, e minhas expectativas eram altas o suficiente para gerarem decepção. O que não aconteceu. Eu estava esperando ficar impactada, e considerei impacto o bastante perder o sono às duas da manhã porque acabou o livro. As coisas que perdemos no fogo é um livro de contos, e precisei parar para respirar e me recuperar depois de terminar cada um. Mariana Enriquez emprega o horror e o grotesco de um jeito tão terrivelmente natural que quase senti culpa de estar lendo aquilo, como se fosse errado deixar aquelas coisas ruins acontecendo na página e não fazer nada. Uma menina arrancando as próprias unhas e cílios. Um garoto acorrentado comendo um gato vivo. Mulheres que se autoincendeiam.

Se é terror, tem que impactar desse jeito mesmo. Ela tortura o leitor ainda de outro jeito: nos obrigando a engolir finais abruptos, secos e cortantes, cruelmente indefinidos. A história inacabada desce pela garganta como um comprimido de remédio grande demais que sufoca por minutos antes de finalmente começar a descer, devagar, pelo esôfago. Não tem nada mais assustador do que não saber o que acontece depois. O indefinido é um dos maiores monstros que existem.

As coisas que perdemos no fogo é um livro incômodo, que causa dor e medo. E é por isso que foi bom. Trouxe exatamente o que eu estava esperando. E, é claro, nada de dor pela dor ou medo sem sentido (tem livros ruins que fazem isso), mas como todo bom terror, representando medos reais, coisas que aconteceram ou que todo mundo sente mas não consegue expressar. Tenho a impressão de que ela escreve como se estivesse em um jogo com o leitor, “eu aguento escrever isso, vamos ver se você aguenta ler”. Eu aguento, Mariana. Pode mandar mais.

Isabela Torezan

 

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