Sem dúvida, o melhor momento do dia. Sentar na cama, encostada em dois travesseiros, mais um no colo para apoiar o livro. A sensação do lençol ainda frio enroscando nas pernas nuas. E o mais importante: saber que o dia acabou. Ao menos, o dia de obrigações e cansaço. Começavam, nesse momento, as horas mágicas, só ela e o livro.
O quarto era tomado por estantes repletas de livros. Na primeira vez que escutou o barulho, vindo da estante à direita da cama, não reparou muito. Na segunda vez, no dia seguinte, achou que era um dèja-vu. Tinha muitos. No terceiro dia, prestou atenção. Um som de água, um gulp-gulp parecido com o que faz uma garrafa cheia de líquido na bolsa de uma pessoa caminhando, vinha da prateleira mais alta, onde guardava os clássicos russos.
Durou alguns segundos e parou. Ela voltou a ler e esqueceu. No dia seguinte, de novo. Gulp-gulp. Ela teve a impressão de que era na mesma hora das noites anteriores e olhou o celular: 11h46. Ficou um tempo olhando os dois volumes de Guerra e Paz, que era de onde o barulho parecia vir, e de novo voltou para a leitura.
No dia seguinte, gulp-gulp de novo, 11h46. O fato de ouvir o som exatamente no mesmo horário a deixava ainda mais intrigada e, inexplicavelmente, trazia a sensação de que não podia ser coisa da sua cabeça. O barulho existia mesmo, e vinha da estante. Sem coragem de chegar mais perto para tentar ouvir melhor, novamente voltou para o livro e mergulhou nele, como sempre fazia para fugir de problemas. Mas dessa vez, o som não parou. Em vez de se limitar aos três ou quatro gulps dos outros dias, um gulp-gulp constante começou a vir da estante, como um badalar de relógio aquático e sinistro.
Desenroscando o lençol das pernas, levantou e chegou mais perto da estante. Gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp cada vez mais alto. Agora ela sentia uma vontade enorme de tirar os livros da estante e buscar a origem do som. Ao mesmo tempo, tinha medo de fazer isso e parou na frente dos clássicos russos, a alça da camisola curta e velha escorregando em um ombro e segurando o livro marcado com o dedo indicador. Respirou fundo várias vezes.
Gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp-gulp
O som era na verdade lento, agora que era constante, e ela imaginou um tanque de água sendo balançado de um lado para o outro, bem devagar. Criando coragem, esticou o braço e tirou o primeiro volume de Guerra e Paz da estante. Ela esperava encontrar algo atrás, um bicho talvez. Mas nada. Viu foi a parede branca e um pouco de poeira, nada suspeito. Tirou o outro volume e colocou os dois em cima da cama. Continuou tirando livros e pareceu que o barulho aumentava, ou ficava mais rápido, mas nada de aparecer a origem do som. Quando já tinha um bom espaço vazio na estante, se sentou na cama, ao lado dos livros, e parou para escutar de novo. Gulp para lá e gulp para cá. Poderia ser um agradável som para dormir se não fosse tão angustiante, por ser sem explicação.
Ela então pegou um dos Guerra e Paz e abriu no meio. “MERDA”, gritou. Um litro de tinta preta caiu do livro no seu colo, e agora parecia que ela menstruava em preto. Soltou o livro desesperada e arrancou fora a camisola ensopada, que usou para limpar as pernas, já que ia ter que jogar fora mesmo. Era muita tinta, e uma tinta grossa e de cheiro forte. Depois pegou o livro de volta e deu com as páginas totalmente em branco. Todas. Seu Guerra e Paz agora parecia um caderno para desenho. Aquela era a visão mais assustadora da sua vida. Ofegante, se apoiou na estante. O desequilíbrio de peso por causa dos volumes que ela tinha tirado deixou o móvel instável, e quando ela se encostou, a estante inteira foi ao chão, e derrubou as estantes vizinhas, numa espécie de efeito dominó. Não eram de um material muito bom, na verdade. Ela não costumava gastar muito com outra coisa que não fossem livros.
Cada livro que caía no chão liberava sua carga de tinta preta, que foi se acumulando no chão e formando uma pequena poça, que depois ocupou o chão todo. Logo ela estava com tinta preta até as canelas, e o quarto tinha um cheiro químico muito forte.
Começou a sentir náuseas e vontade de vomitar com o cheiro da tinta e tentou alcançar a porta para ir até o banheiro, mas seus pés se arrastavam com dificuldade no preto viscoso que tomava conta do chão. Acabou desmaiando antes de vomitar e caiu com o rosto para baixo, mergulhando boca e narinas no suco que um dia foram as letras dos seus livros.
Sem respirar, ela se afogou. No dia seguinte, a funcionária que fazia a limpeza da casa chegou e viu tinta preta no chão do corredor. Abriu intrigada a porta do quarto, por baixo da qual saía mais um pouco de tinta preta, com dificuldade, porque o vão entre a porta e o chão era muito pequeno. Encontrou a amante dos livros caída de bruços no chão, morta, usando apenas uma calcinha toda manchada de preto.
Isabela Torezan
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