Eu vim para Dublin para fazer mestrado.
Sendo alguém que há muito tempo se equilibra (mal) em cima de pilhas de palavras, e tendo começado o texto com a frase anterior, eu poderia escrever sobre como machuquei o pé dias antes de embarcar na maior jornada da minha vida, ou sobre como tive muitas dificuldades com minhas malas para então elas se perderem em uma conexão e eu chegar em um país que não é o meu só com a roupa do corpo e uma mochila, ou sobre como o voo foi horrível com três bebês chorando e um senhor roncando, ou sobre como um irlandês mal humorado gritou comigo no telefone, ou ainda sobre a desconfortável hora do pôr do sol a essa hora do ano aqui.
Mas isso tudo seria material para blogposts comuns de uma pessoa comum fazendo algo comum que é relatar uma experiência de estudo fora do país. E estou tentando não ser comum desde que me entendo por gente. Logo, não é sobre esse tipo de coisa que vou escrever enquanto estiver aqui. Parte disso é uma espécie de revolta contra o mundo gerido pelas redes sociais em que as pessoas esperam que você compartilhe sua vida diariamente e esquecem da existência de quem não marca presença postando stories. A outra parte sou eu fazendo a única coisa que acho que faço direito: contar histórias escrevendo. E elas não precisam ter acontecido.
Então, não são relatos da minha vida em Dublin que você vai ver por aqui. Se foi por isso que começou a ler, é uma alegria decepcioná-lo(a). Pode fechar a página em paz.
Aqui, pretendo escrever tudo o que não está acontecendo comigo em Dublin. Nem sempre o que vemos é verdade, logo, o que não vemos pode muito bem ser. Aquilo que é imaginário pode se tornar real com tanta facilidade que é um absurdo ainda fazermos essa separação. E fazer do imaginário uma fonte de material de escrita aumenta tanto as possibilidades que é uma tentação irresistível, ainda mais para alguém que sofreu durante a faculdade de jornalismo na árdua função de achar pautas.
Chega de introdução. Não prometo nada, não me comprometo a nada, me recuso a ser cobrada, mas, se leu até aqui, espere por mais. Infelizmente para quem lê, a relação leitor/autor é assim meio desbalanceada mesmo. Confesso que adoro essa sensação de estar no controle de alguma coisa, absolutamente nada mais me provoca isso. Como recompensa a você que não fechou a página, deixo aqui uma prévia do que esperar: quero contar como descobri que estou hospedada num quarto que fica dentro do reino de um gnomo de mais de 300 anos de idade, e como isso afetou meus primeiros dias aqui. Até mais.
Isabela Torezan
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