Ainda não vi ninguém falar sobre a mudança provocada pela chegada dos fones de ouvido sem fio. Não headphones, mas os pequenos, de encaixar no ouvido. Eu não tenho um desses, mas o fato de que existem e muita gente tem me permite andar pela rua falando sozinha sem parecer doida. Meu cabelo cobre minhas orelhas e quem disse que não estou em uma ligação enquanto ando por aí cuidando da vida? O avanço da tecnologia me deu mais liberdade sem que eu precisasse gastar um centavo com ela, um dos poucos casos no capitalismo.
Seria ainda melhor se eu tivesse a certeza de não estar sendo entendida, algo normal para alguém falando em português andando em um país que fala inglês. Não é o caso de Dublin, onde a chance de a pessoa ao seu lado na calçada ser brasileira é de uns 68%. Então tomo cuidado em falar baixo, mas pelo menos jamais atraio olhares por estar murmurando sozinha. Falar sozinha andando é uma técnica que desenvolvi na expectativa de perder menos material de escrita. A rua e lojas e outros estabelecimentos são fontes ricas em coisas estranhas, elemento que eu invento com frequência para escrever. Mas minha sabedoria de mulher precavida não me permite andar por aí anotando coisas com o celular dando bandeira na mão, e infelizmente minha memória é curta o suficiente para apagar o que vi andando antes que eu chegue em segurança ao computador.
A técnica funciona da seguinte maneira: ao passar por algo estranho, descrevo ou narro o fato para mim mesma, e isso parece prolongar a vida útil da minha memória ordinária em alguns minutos. Tem funcionado para caminhadas de aproximadamente meia hora. Na minha cabeça, forma-se uma espécie de caderno de colagens: cada colagem é tipo um still frame de cada fato estranho pelo qual passei. Os fatos em si não servem de muita coisa, mas se consigo anotá-los quando chego, podem ser material bastante rico para algo decente mais tarde.
Segue colagem da última caminhada como exemplo.
Vejo uma charrete puxada por um cavalo malhado de branco e marrom e ela é guiada por dois garotinhos muito novos, me pergunto qual a idade mínima para dirigir cavalos em Dublin.
Um casal de brasileiros procura por sabonete no supermercado. Ele segura o pacote e comenta: “nossa, só quatro sabonetes nesse pacote”. Ela responde: “claro, só no Brasil que vende pacote com seis ou oito. Aqui, só quatro”.
Um pedinte na frente de cada supermercado. Na frente de uma igreja, há uma pessoa dormindo deitada em um banco coberta por um tecido preto. Está chovendo, e cada vez mais forte. Começo a sentir um mal estar pela pessoa no banco. É uma estátua.
Passo por uma papelaria que anuncia “student discount all year with valid ID”. Algumas quadras depois, uma loja de vibradores chamada “Good Vibrations” também anuncia “student discount with valid ID”.
Eu e uma multidão de pedestres esperam para atravessar a rua. Um ônibus de turismo imitando (tentando) um barco viking passa por nós, e um dos turistas tem um chapéu com chifres na cabeça. O sinal de pedestres fica verde e a horda do outro lado avança em nossa direção ao mesmo tempo que nós avançamos para eles, por uma fração de segundos vejo um exército viking avançando pela rua.
Isabela Torezan
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