Dublinense – dez

Às vezes estou apenas vivendo o dia e tudo isso parece um absurdo. O que vejo lá fora através da janela é um absurdo, o sinal de pedestre que vejo do outro lado da rua é um absurdo, o pacote de pão que acabei de comprar no mercado contém pães absurdos. Tudo parece pertencer a um extremo de incongruência. Ultrapassa qualquer sentimento de deslocamento que eu já inabilmente naveguei. A reação da mãe de uma ex-colega de ensino médio que eu não via há muitos anos: mas a Isabela? Morando fora? Foi sozinha? Como assim?

Um absurdo. E, ao mesmo tempo, nada parece estranho o suficiente para justificar se apresentar para mim como absurdo. É um tipo diferente de estranheza, de não-encaixe. Não sou eu que não me encaixo no mundo, é o mundo que tomou uma forma tortuosa e não encaixável a nada e a ninguém, disfarçada de ordinária. Por que então os outros parecem encaixados?

Porque não enxergam absurdos, acho. Tenho quase certeza de que a maioria dessas pessoas está vivendo um mundo pasteurizado. Plano, comum, claro. Ao menos, não dão nenhum sinal de perceber a violência dos absurdos que batem em cheio na cara delas. Elas tropeçam em absurdos, levantam e continuam andando como se nada tivesse acontecido.

(No, you don’t understand, eu digo a ela.)

Ver absurdos é uma maldição e uma bênção ao mesmo tempo. Maldição que provoca diversos tipos de dor, desde a irritante dor no simples ato de andar até a dor nauseante que agora sinto quando preciso escrever, um nó em um lugar que não é a garganta, mas ainda assim parece que engoli alfinetes e preciso vomitar ou chorar. Benção que me livra de ser como eles: assustadoramente seguros do que estão vendo. Se não estão ocupados com estranhar esse monte de absurdo, se conseguem seguir repetindo as coisas que parecem normais, o que fazem com tanta mente livre?

Eu enlouqueceria, ou seria tão feliz que nunca mais ia conseguir escrever uma linha sequer.

Isabela Torezan

One response to “Dublinense – dez”

Leave a comment