Com cuidado, com muito cuidado, porque ela não gosta de um monte de retalhos pequenos. Quero levar largos pedaços desse musgo tão macio e verdinho, se eu conseguir tirar um grande o suficiente para forrar todo o fundo do ninho ela vai ficar tão contente. Quando penso no brilho dos olhinhos pretos dela sinto uma força extra para puxar esse musgo teimoso que não quer sair. Vejo um esquilo cinza me observando, sarcástico. Esses esquilos não tem um mínimo de empatia por qualquer um que seja, riem na cara das enormes gaivotas urbanas, imagino o que pensam da minha triste figura de corvo magro. Não me importo, desde que me deixem em paz. Outro dia, vi um deles atacando nosso vizinho, que ciscava o chão. Por sorte podemos voar. Eles encantam os humanos, esses pequenos diabinhos peludos de cauda felpuda. Nós só atraímos a atenção de adolescentes estranhos sedentos por originalidade. E um ou outro interessado em aves. Até para esses por vezes passo despercebido, sou comum demais. E não sei fazer sons melodiosos. Que difícil está de arrancar desse lado, meu bico dói. Minha noiva disse que queria ter nascido um robin, pequeno e alegre, saber cantar aquelas notas agudinhas. Eu não. Apesar de tudo, gosto da existência de corvo. Gosto da cor preta, gosto da nossa aura tétrica. Acho que robins sempre parecem estar desperdiçando energia, saltando ininterruptamente sem motivo e exalando uma felicidade exagerada que às vezes acho muito sem propósito. Minha noiva diz que sou pessimista. Talvez eu seja, mas não a ponto de achar que ser pessimista é ruim. Ser um pouco pessimista me poupou de muita decepção. Não espero muito da vida, mas sei reconhecer quando ela me dá algo bom. Como essa pedra inteira recoberta pelo musgo mais perfeito que poderia crescer aqui. Ela vai ficar encantada, veja quantos pedaços bons já consegui. Agora é rezar para que aquele esquilo ridículo não venha mexer na minha colheita enquanto levo pedaço por pedaço. Ele não tem nada o que fazer com um musgo tão bonito, aposto, ouvi dizer que as tocas desses seres são uma bagunça nojenta cheia de restos das coisas que eles comem. Vou começar levando esse pedaço maior, esse não posso perder. Ah, ela vai gostar tanto. Cra cra craaaaaa.
Ah, ela vai ficar encantada
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