(Dor)avante denominada eu

Um corpo é um aglomerado de células. Meu corpo é um aglomerado de células. Penso nisso enquanto ando e sinto a dor que agora já considero parte minha, depois de meses sentindo dor ao caminhar. Depois, uma ferida no outro calcanhar, uma bolha avermelhada na perna em que derramei chá quente, o útero em silêncio há oitenta e três dias, uma espinha no queixo, uma dor na coxa direita, meus olhos ardendo, os hematomas sempre presentes na minha pele branca demais, uma pele sangrenta que se descola de uma unha. Como pode um aglomerado de células se expressar com tanta veemência?

Deixe de drama. Você não está acostumada a ter problemas de saúde.

Nem sempre acho dor um sentimento ruim. É ruim, na maior parte das vezes, e quero livrar meu corpo da dor. Mas, às vezes, me vejo segurando uma dor como alguém segura uma corda, a outra ponta me garantindo que estou ligada nesse aglomerado de células. Que somos realmente uma coisa só, eu (?) e esse aglomerado. Um aglomerado que eu protejo do contato humano, invasivo e disruptivo, e que eu tento com constância controlar. Você é o que você come, yoga, sagradas são as noites de sono, chás medicinais.

Para saber quem sou não adianta nada olhar no espelho. Não vejo uma resposta, uma pergunta escrita ou falada não se responde com uma imagem. O que é esse corpo, então, se não é eu? E ele tem a audácia de se passar por mim, está invariavelmente presente no espaço e na companhia de outros, e me obriga a estar lá ao mesmo tempo e ser alguma coisa, alguém para ele representar. O que é cansativo quando não se sabe o que, quem.

E, no entanto, às vezes é difícil acreditar que estamos ligados, porque ele vai a lugares que não vou, eu sinto coisas que ele não sente, me faço presente onde ele não está, ele deseja coisas que não conheço. Parece incrível que fazem vinte e cinco anos que vivemos desse jeito. Deve estar certo, ou eu não estava viva, esse estado misterioso que ninguém sabe definir direito. Definir o estado de morte é fácil, basta a imagem nesse caso. Depois da morte, é só o corpo. Já a vida é essa ligação em funcionamento entre o eu e o corpo. Mas uma ligação falha, ao menos para mim, que não sei quem sou, não sou quem incorporo, e não incorporo um saber. Ainda.

Escrever: por hora, a única forma de sintonia real – meu corpo digitando a serviço do que tenho de mais eutêntico, ainda que nenhum de nós dois consiga ver isso no espelho.

Isabela Torezan

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