Seriam vinte e cinco minutos, deitada sem me mexer, com um abafador de ouvido fazendo o barulho da máquina de ressonância virar um agradável ruído branco. A maca era macia, com um travesseiro confortável. O tramadol circulando no meu sangue já quase me levava para outra dimensão, uma bonita dimensão onírica onde ninguém sente dor. Eu realmente não sentia dor nenhuma deitada, o motivo da minha visita noturna à clínica de exames era uma excruciante dor para andar que se revelou ser uma fratura acompanhada de quatro tipos de inflamação e um derrame articular. Se eu vou fazer uma coisa, faço direito: por que ter um problema simples quando se pode ter um conjunto de problemas? Assim já passo por vários tipos de tratamento de uma vez só e adquiro mais experiência de vida em menos tempo.
Mas, deitada na maca do exame, pré-laudo, eu ainda não sabia desse meu sucesso médico. Entrei em um estado em que tive a impressão de que na verdade não sabia mais nada fora meu próprio nome, do qual ainda assim duvidei. Dediquei-me a estudar o teto, pensando que, se quisesse escrever algo sobre a experiência depois, eu precisaria ter reparado nos detalhes. Logo acima da minha cabeça, o material branco de que era composto a maior parte do teto era interrompido por uma grade quadrada.
Minha bibliotecária interior me ofereceu Voyeur, do Gay Talese. No livro, a abertura instalada no teto do quarto de hotel servia de janela para os momentos mais íntimos dos hóspedes (vítimas?) do casal voyeur. Se alguém estivesse espiando por aquela grade ali veria uma mulher sem maquiagem, cabelo recém-lavado grudando no travesseiro, vestida para um frio moderado com uma blusa de lã larga e jeans já meio velhos. Definitivamente uma visão desinteressantíssima, ao menos para um vouyeur. A minha visão de paciente-objeto também era desinteressante: um tubo grande que supus ser de circulação de ar e uma escuridão completa.
Povoei a escuridão completa com um gambá imaginário, que passou correndo pela abertura rumo à sua toca secreta no forro da clínica. Depois veio um ghoul quase simpático que se deitou na grade e ficamos nos encarando até o exame acabar. Ter uma imaginação que presta é realmente uma bênção.
Meu jogo de quem-pisca-primeiro com o ghoul no teto foi interrompido pela técnica da clínica, que veio tirar meus abafadores de ouvido e libertar meu tornozelo das garras da máquina. Desci as pernas para o chão e fui expulsa violentamente da minha dimensão onírica com um golpe de dor que subia do calcanhar. Mancando, fui buscar minha bolsa na salinha anexa e procurar a saída daquele estranho ambiente de suspensão.
Tenho uma relação estranha com a dor. Às vezes, daria tudo por um pouco de dor física, porque nada mais me distrai de verdade do mundo, e ela nunca vem. Sou perfeitamente saudável sem querer. E quando preciso ou quero muito estar em minha saúde perfeita, é quase certeza de que meu corpo vai arrumar algum jeito de me incomodar ou me atrapalhar, com a dor.
Esse texto é uma crônica, será que minha dor também é?
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