Dramaturgia

Deitei na maca como ordenado, não era minha primeira tomografia da vida e o jejum absoluto me incomodava mais, naquele momento, do que a possibilidade de ter um tumor na hipófise. “Tudo bem?”, perguntou a técnica, a pergunta retórica mais gasta da língua portuguesa. Nem pensei para responder “tudo ótimo”, a mentira mais gasta da língua portuguesa.

Fui obrigada a pendurar a cabeça de forma a fazer meu queixo apontar o teto, que era decorado com uma assustadora imagem em cores saturadas de folhas de palmeira. Ela amarrou meu braço com força com um elástico (dor) e, com a praticidade de alguém que fura uma caixinha de suco, enterrou na minha pele o pequeno tubo que ia me injetar iodo enquanto eram tiradas feias fotografias do interior da minha cabeça.

“Doeu, né?”, pergunta empática dessa vez, e menti de novo. “Não, quase nada”. Tentei relaxar segurando a pequena mangueira de plástico que agora saía do meu antebraço. Escutei meus músculos rindo de mim. A técnica parecia muito feliz, a animação dela em ver meu rosto enquadrado de ponta cabeça pelo aro da máquina de tomografia indicava um início de carreira ainda não envenenado pelo cansaço.

Ainda assim, ela devia saber o quanto de dor eu estava sentido, como a posição era desconfortável, como a sensação de ter meu sangue entrando em ebulição me fazia querer levantar dali correndo e me atirar contra a parede gritando, e em vez disso estava proibida de me mover um milímetro que fosse. Ela veio correndo me ajudar a sentar assim que a máquina monstruosa finalmente ficou em silêncio (dez minutos que pareceram dez dias), garantindo quase emocionada que não tinha me esquecido ali. 

Saí andando com o braço duro por causa do grotesco curativo composto de uma bola de algodão presa por um pedaço enorme de esparadrapo, e respondi que o exame tinha sido “chato” quando me perguntaram depois. De noite respondi a “como foi seu dia?” com um “tudo certo, tirando o exame meio chato”. No dia seguinte eu já estava pronta para cortar pela metade o sofrimento de novo e nem mencionar o exame.

Tive raiva de quem, nesses dias seguintes, reclamou para mim de incômodos simples enquanto passo por tudo isso (a tomografia sendo só mais um dos sofrimentos dessa série que eu exorciso em texto). E tive culpa por ter raiva porque afinal, não sou sempre eu a primeira a diminuir minha própria dor? Não sei se isso é medo de me julgarem dramática, se é necessidade de honrar minha resistência feminina à dor e mostrar que homens são mesmo mais fracos, se é receio de ofender quem também sofre e não reclama. Talvez tudo isso junto. 

Acabo, com isso, sendo mesmo dramática, o verdadeiro drama é esse: uma representação bem ensaiada de uma força que não tenho. Dramaturgia da dor que faz da vida uma peça encenada de novo e de novo toda vez que respondo “tudo bem” quando queria dizer que tudo tá horrível, quando faço nascer do nada uma empatia por um resfriado, quando sorrio porque está sol e cozinho um almoço e escrevo um texto e procuro emprego e estudo e caminho e me lembro e cuido e digo eu te amo em vez de enfiar a cabeça num buraco e apreciar a escuridão sincera.

Drama é arte, e a arte é a verdadeira realidade. Enceno a vida, porque isso é que é existir.

One response to “Dramaturgia”

  1. Eu faço parte do elenco da peça “Sta male, ma va bene”.

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