Quando não havia mais o que fazer, Angela começou a recolher coisas perdidas. Ela imaginava que as pessoas tivessem nomes inventados para ela: Mulher Catadora, Bruxa da Sacola, Tia dos Cacarecos. Destes, ela se identificava mais com Bruxa da Sacola. Uma pena, na verdade, nunca ter ouvido ninguém a chamar assim.
Angela saía cedo com sua sacola, porque as primeiras horas da manhã são as melhores para encontrar coisas perdidas. Quando a luz do sol já ilumina mais que o poste e os garis ainda não estão trabalhando, ela tinha mais chances de encontrar seus tesouros. Em uma manhã produtiva, voltava para casa com três ou quatro coisas sem rumo, e lhes dava um lar na varanda da casa.
Angela não recolhia lixo, embora às vezes seus tesouros fossem confundidos com coisas descartadas e levados pelo caminhão fedorento. As coisas perdidas, verdadeiramente perdidas, só podem ser identificadas por quem conheceu a perda por dentro. Angela havia se perdido completamente, e tentado de tudo para encontrar o caminho. Ela nunca recolhia lixo por engano. Tudo o que pegava tinha o mesmo ar de trem fora dos trilhos que ela própria.
Não era por mera identificação que ela recolhia as coisas perdidas. Angela tinha certeza de que as coisas que se perdem automaticamente ganham um novo lugar no mundo. Então, porque esse lugar não poderia também receber pessoas? Quando viessem buscar as coisas perdidas para as levarem ao seu novo lugar, Angela imploraria para ir com elas.
Nesse lugar com que ela sonhava, haveria uma utilidade para o pé esquerdo de um sapatinho de bebê, para a caneta cor-de-rosa com um flamingo de plástico na ponta e para o molho de chaves preso a um barbante gasto. Ela imaginava um paraíso dos brinquedos perdidos, tantos eram os que ela encontrava. Mas também um destino racional para muitos cartões bancários, crachás de empresas e guardas-chuva. Ela com certeza se desperderia num lugar onde tanta coisa se encontra.
Durante meses, Angela recolheu coisas. No segundo mês, ela já era conhecida, na vizinhança, pela sua ocupação, o que levou a alguns felizes reencontros de crianças com bolas e bonecas abandonados na calçada. Um adulto também, um homem jovem que conseguiu perder a aliança em um bueiro às duas da madrugada, recorreu a Angela como o oráculo das coisas perdidas. Angela, obviamente, tinha visto o anel refletindo os primeiros raios de sol em cima da sujeira que entupia o bueiro, e resgatado o tesouro usando um instrumento de arame confeccionado por ela mesma. Ela devolveu a aliança ao dono sem pestanejar, com o conselho de que o mandasse apertar no joalheiro.
Mas a maioria das coisas não era reivindicada. No quarto mês, o espaço na casa estava acabando e Angela começava a se preocupar que ninguém fosse buscar as coisas perdidas.
O relato acima é tudo o que se sabe sobre Angela, que deixou um breve diário registrando suas coletas. Tomei a liberdade de extrair as informações relevantes e omitir as repetidas (inúmeros registros de coisas recolhidas, com nome, data e descrição), e de editar a filosofia dela, para torná-la mais coerente e legível.
Angela foi dada como desaparecida ao final do quarto mês, um dia depois da última data em seu diário. Uma vizinha, notando que ela não saíra de casa e imaginando um acidente ou doença, tocou a campainha. A vizinha era uma mulher bondosa, mas também fofoqueira, razão pela qual Angela sempre barrava todas as tentativas de aproximação. Ela não desistiu ao não obter resposta da campainha várias vezes durante a manhã, e no fim da tarde, receosa de envolver a polícia, chamou um sobrinho para arrombar a porta.
A casa foi encontrada vazia de vida, e livre de todas as coisas perdidas.
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