-
Entendendo-me paciente
Estou, ainda, incapaz de sentir toda a transformação que me prometeram com essa cirurgia. Limpar a minha hipófise de um tumor me livrou da Doença de Cushing, e do avanço dos vários problemas de saúde a ela associados. Fica a osteoporose grave, que tratarei com injeções formadoras de ossos, e o princípio de obesidade, que…
-
Dramaturgia
Deitei na maca como ordenado, não era minha primeira tomografia da vida e o jejum absoluto me incomodava mais, naquele momento, do que a possibilidade de ter um tumor na hipófise. “Tudo bem?”, perguntou a técnica, a pergunta retórica mais gasta da língua portuguesa. Nem pensei para responder “tudo ótimo”, a mentira mais gasta da…
-
(Dor)crônica
Seriam vinte e cinco minutos, deitada sem me mexer, com um abafador de ouvido fazendo o barulho da máquina de ressonância virar um agradável ruído branco. A maca era macia, com um travesseiro confortável. O tramadol circulando no meu sangue já quase me levava para outra dimensão, uma bonita dimensão onírica onde ninguém sente dor.…
-
Dublinense – The End
Achei curioso constatar que estive em Dublin por exatos 320 dias. Não foram 319 ou 321, mas um número redondo terminado em zero. Um resultado exato e par para o que foram dias muito inexatos e ímpares. A Dublin em que morei durante estes 320 dias não deixou de surpreender e espantar e deslocar do…
-
Dublinense – vinte
Não sei qual dos apps de relacionamento é mais comum na Irlanda, não poderia fazer um chute muito seguro de em qual deles aqueles dois tinham se conhecido. A posição da mesa deles era ideal para serem observados discretamente da minha. Não que eles fossem perceber que estavam sendo observados de qualquer forma, tenho certeza…
-
Dublinense – dezenove
A primavera aqui chegou sem fazer barulho, como que tentando não se fazer notar, uma visita que manda as bagagens na frente aos poucos e um dia chega, bem silenciosamente, e se instala num quarto. Dias depois, passa a andar pela casa. Os brotinhos de folhas e uns botões de flores começaram a aparecer há…
-
Dublinense – dezoito
Um culto satânico, terapia cromática, uma lareira falsa, uma chocadeira ou só um abajur cafona? É a terceira sacada contando da esquerda para a direita no prédio que impede que a visão da minha janela seja mais interessante. Para alguém com tendências voyeuristas, é interessante o suficiente. Tem a família no andar térreo cujo pai…
-
Dublinense – dezessete
Um cara me parou a caminho do parque perguntando se podia me fazer uma pergunta, apenas uma pergunta. Não, eu não queria uma pergunta aqui, agora, nessa rua lotada de gente num domingo de tarde, porque ele me escolheu? Casaco preto fechado indo das minhas canelas até o queixo, óculos escuros em pleno dia nublado,…
-
Dublinense – dezesseis
Esse sentimento novo que eu não consegui dar nome ainda, que não é só saudade nem medo nem confusão nem deslocamento nem estranheza nem incômodo nem falta de ar, mas é uma mistura de tudo isso. Hoje uma situação reproduziu isso tão bem que quase achei que ia conseguir dar nome. Descrever o que houve…
-
Dublinense – quinze
Eu não tenho medo de morrer. Nunca tive. Não acredito em inferno, purgatório ou qualquer coisa ruim que suceda a morte, logo não há de que ter medo. Na verdade, não acredito nem em alguma coisa boa que suceda a morte, isso talvez fosse motivo para medo. Do infinito tenho medo, do vazio, da continuação…